CLÉU ARAÚJO
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Há que endurecer-se?

por: Cléo Araújo

28 JAN

2009

“Por mim, teria nascido em 1910.
Acho que seria bom ter sido moça de 20 na década de 1930.
Seria bom ter sido fã de Gene Kelly, ter usado penteados armados, casquetes e ter fumado com piteira”.
Essa era eu falando sozinha enquanto levava meu carro para a revisão.
Entre um pensamento e outro, conversava ao celular com alguém do trabalho, que tentava marcar para mim uma passagem para Cuiabá e tomava uma multa de um CET escamoteado bem ao meu lado.
Pensava, também, que a faxineira ia ficar sem sabão em pó porque eu ainda não tinha tido tempo de fazer supermercado naquela semana. Nem na passada. Nem na anterior.
Pensava que por mais uma noite eu não conseguiria arquivar minhas contas empilhadas há quatro meses na mesinha ao lado da porta de entrada, porque teria que usar o pouco tempo livre que tinha naquela noite para fazer uma malinha para ir para Cuiabá.
Pensava que mais um dia eu perdia momentos preciosos da minha vida ali, dentro do carro, para serem somados às outras mais de 2.000 horas que eu certamente já deveria ter passado maxi puta da vida atrás de um volante.
De repente me dei conta: minha vida havia se transformado naquilo. Uma triste metáfora daquele trânsito sem dono. Um caos completo no qual nada mais era importante e tudo era urgente.
Minha vontade não poderia ser outra naquele momento a não ser cometer maldades contra as outras pessoas. Ou ligar para minha tia que faz bordados maravilhosos lá no interior (e que está muito feliz, obrigada!) para trocar idéias filosóficas sobre alternativas àquela vida que me engolia.
Ela.
A tal dita vida “moderna”.
Ela é a vida que mata esse coitado que se senta na “baia” aí ao seu lado. É também a vida que machuca aquela mulher que liga para o pedreiro enquanto aguarda na sala de espera do ginecologista. É a vida de todas aquelas pessoas que tentam ser duas, três, vinte ao mesmo tempo. É uma vida que subentende o acúmulo de tarefas, responsabilidades, neuroses e pânicos. É uma vida de post its colados por todos os lados. É uma vida que, em última instância, leva à morte.
E como defender essas pessoas todas, se a culpa por esse tipo de vida é delas mesmas?
Que raiva de mim. Que raiva de você. Que raiva do mundo. Que raiva de Cuiabá. Que ódio do Natal, da 25 de março, desse helicóptero barulhento e desse cocô de passarinho no meu pára-brisa.
Eu acho, sim, que muito dessa vida louca que conquistamos precisa ser celebrado. Todos os dias, todas as horas, sob qualquer argumento. Nossas conquistas não se discutem. Os espaços que conquistamos não estão à venda. Não queremos devolvê-los. A vida de hoje é resultado de uma luta à altura das nossas capacidades intelectuais e profissionais. É por isso que mulheres trocam lâmpadas, administram empresas, pilotam aviões e dirigem países. É por isso que homens criam bebês sozinhos, preparam bolo de cenoura com calda de chocolate e conhecem truquezinhos para tirar manchas de gordura das roupas que fariam inveja à Dona 5 a Sèc.
Mas, por outro lado…
Qual a pessoa que não sonha em ser cuidada, em ter tempo para zelar pela sua qualidade de vida, da sua família, do seu cachorro e do seu vaso de manjericão? Em ouvir uma música da Camille enquanto mergulha o corpo cansado em uma banheira cheia de espuma SEM TER QUE CORRER para abrir a porta para o rapaz que veio concertar a máquina de lavar? Qual a mulher que, por pelo menos alguns segundos da sua vida, não sentiu inveja da sua avó, que reunia as amigas às quartas-feiras à noite para um joguinho de baralho e uma taça de sangria?
O fato é que se perdeu a ternura.
E talvez esses aspectos ternos da vida de outrora fossem sim compatíveis – e até estratégicos – com os da vida moderna, porque nos ajudaria a desacelerar essa insanidade que nos dita um ritmo antinatural e que nos obriga a “passar pelos dias”, a ir para Cuiabá fazer não se sabe bem o que, a conciliar o inconciliável e a comprar um Vale-DVD em uma livraria lotada para aquele estagiário novo do escritório que você sorteou no amigo secreto.
Cadê de viver esses dias? De saboreá-los, de sentir seus cheiros?
Não mais…
Eu pensava em tudo isso pela sétima e última vez naquele ano… Quando um filho da puta freou no sinal verde bem à minha frente.
Eu meti a mão na buzina e o mandei à merda.
Caso perdido.

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