CLÉU ARAÚJO
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Hipóxia

por: Cléo Araújo

14 DEZ

2014

Sinto o cansaço de um alpinista do K9 de 83 anos de idade com enfisema pulmonar e prótese no quadril.

O ar rarefeito que me rodeia e me deixa zonza não enche meu peito por mais que eu puxe, por mais que eu inspire sem nunca expirar. O ar não vem. Simplesmente não vem. Não fica. A perna quer ir, não vai. O pé fica socado na neve mesmo que o cérebro ordene que ande. Tornozelos gelados, roxos, gangrenados.

Na solidão de quem escala, percebo um tempo que não me merece me escorrendo feito areia fina pela cintura enquanto a neve cai. Eu tenho pouco tempo de um tempo que eu não mereço.

Eu engasgo a palavra não dita porque, maldita seja, sentiu medo de sair e de dizer algo tão simples e composto como “que merda”. É o frio. Na solidão da montanha, eu sinto a perda. A perda em mim e no mundo.

Eu paro um pouco, tomo um gole de água e penso em tudo que fiz, em tudo que ouvi, em tudo que comi, bebi, fumei. A neve me faz pensar na espuma e eu quase sinto seu gosto. Penso na densidade da espuma e penso que a espuma, toda ela, fui eu mesma quem fez.

Eu fecho os olhos molhados, porque eles são assim. Uma lágrima quase congela e eu penso que não consigo, não sei viver sem um doce azedo, sem um azedo doce confeitado por mim.

Não sei fazer silêncio, mas faço como ninguém. A onda vira maremoto. O maremoto, uma explosão de supernova. Mil sóis nascem enquanto o meu se apaga numa anã branca, solitária, buraco negro, no silêncio infinito do universo que é onde eu jogo minhas neves, espumas, salivas e lágrimas. O sol brilha, mas não me esquenta. Aqui, faz frio.

Ouço uma música dentro da minha cabeça. Cada acorde, uma memória. Cada memória, por favor, me acorde. Vivo dessas gotículas que umedecem meus óculos. São elas, as gotículas, as culpadas do futuro que não construo. Vivo nesse castelo de cartas, tão frágil, tão fugaz, quase tão fino quanto minha pele avermelhada nessa escalada sem fim.

Minha cabeça sem oxigênio pede, soluçando seco. Não sabe se corre, se fica ou se faz o que faz de pior quando em hipóxia: pensa. Ela quer entender tudo o que eu estou pedindo, inclusive quando fala sozinha. Ela quer que eu acredite nela, mas depois quer que eu duvide. Me provoca mais do que uma barba mal feita. Me dá esperança, me chuta na lama. Falta ar. Só falta ar.

A realidade, tão criativa quanto a imaginação, às vezes mais, às vezes tão mais, não me diz não. E eu quero um não porque são os sins que me matam. Ela sabe sem fazer ideia de tudo que corre molhando meus olhos, nem poderia.

É só que ontem, lá no acampamento base, eu era uma pessoa feliz e que respirava bem. Que queria chegar lá em cima. Tirar um selfie no cume.

É só que ninguém merece ou sabe ser tão feliz assim.

Sigo escalando sem nunca chegar no pico.

Sigo na neve, caminhando e gelando minhas pernas que afundam até os joelhos na neve que eu mesma nevei.

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