CLÉU ARAÚJO
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Era uma vez uma ilha

por: Cléo Araújo

06 OUT

2006

As fotos do site não haviam mentido. Era tudo realmente gracioso, aconchegante, arejado, iluminado, perfumado, como pareciam ser todos os lugares naquela cidadela mágica. E o encantamento se revelava em todas as expressões de seu rosto, de bochechas já coradas pelo sol.

Desde a visão do porto, onde escunas e veleiros descansavam, passando pelo funicolare, pelas motinhos elétricas e cabriolets, até o sentir do perfume do tomate fresco, do manjericão, do limão, do azeite, do pecorino e do biju saindo do forno, tudo enchia seu cérebro de sinestesias mediterrâneas. Depois o mar, as pedras, as primaveras… E cada centavo economizado naquela aplicação do banco começava a mostrar o seu valor.

Já no hotel, visão brindada com o piso de cerâmica colorida e paredes de azulejo e por toda aquela chuva de verde-água, azul-marinho, amarelo-ouro e vermelho queimado. Em seu quarto, a varanda, onde se espreguiçavam duas cadeiras de sol, cobertas por um caramanchão de flores multicoloridas. Era assim que suas primeiras horas na ilha iam sendo preenchidas. O céu, lá em cima, o mar, lá embaixo, ela, esticada em uma cama king size, com uma taça de prosecco nas mãos, simplesmente a mais “ben venuta” de todas as mulheres do planeta terra.

Abriu uma mini garrafa de gin e preparou uma bebida com tônica e umas poucas pedras de gelo. Encheu de água quente a banheira de cerâmica branca e nela salpicou generosas pitadas de sais de banho, produzidos ali mesmo, na ilha. E tudo ficou cheirando a flor de laranjeira. Ela nunca havia se sentido tão bonita, tão feliz consigo mesma e com o espelho, enquanto Marvin Gaye cantava em seu ouvido.

Vestiu uma saia de linho branca, até o joelho, uma blusa bege de alças finas, um colar vermelho, de piriquitis, uma rasteirinha dourada e, nas costas, um xale branco de linha, de leve transparência. Estava pronta para ilha. E a ilha estava pronta para ela.

Ele já a aguardava no lobby. E ela já se sentia tão íntima dele, mesmo o tendo conhecido há menos de quatro horas, ainda no barco, ali, parado do lado de fora, apoiado na grade externa, admirando o rastro de espuma que ficava na água. Ele, alto, cabelo castanho claro, encaracolado, mochila nas costas, sobrancelhas e pelos dos braços nitidamente clareados pela ação do sol. Sozinho. Trocaram olhares, sorrisos, uma conversa. O acaso quis que ele também fosse brasileiro. E a coincidência exigiu que eles compartilhassem a mesma semana de férias, naquela mesma ilha.

Agora ele estava ali, no lobby do hotel onde ela estava hospedada, e a aguardava. Vestia calça bege, de tecido mais fino do que sarja, camisa branca para fora e um sapato que ela preferiu não olhar de imediato. Era facilmente repelida por sapatos que não a agradavam, como mocassins e alpargatas.

Beijo no rosto.

Caminharam até a praça central da cidade, onde se concentravam vários restaurantes, bares e sorveterias, todos com mesas externas dispostas de forma aleatoriamente organizada. E tudo à meia luz. Era difícil escolher, tudo parecia convidativo, delicioso e temperado da maresia. Optaram por aquele aconchegante restaurante especializado em vinhos locais, como proclamava o simpático anfitrião, do lado de fora. Se estivesse sozinha, acabaria puxando conversa com aquele rapaz… Mas… Ele estava com ela, que não acreditava na sorte de tê-lo conhecido logo no seu primeiro dia de férias. Era estatisticamente impossível! E não parecia haver companhia melhor para aquele momento.

O lugar tinha uma beleza pitoresca. Era, enfim, como ela sempre imaginara que fosse um restaurante naquela ilha. Ficaram no terraço, que tinha vista para toda a praça e para o mar, lá mais ao longe. Parecia de mentira: vasos com gérberas sortidas decoravam as mesas, sobre as quais pendiam fios com lâmpadas coloridas, que ornamentavam a viela de um lado ao outro.

O céu exibia todas as suas estrelas, e era interessante perceber que as de lá eram diferentes das de sua casa, das de seu dia-a-dia. Ela acreditava que essa era, afinal, uma das razões de ser das viagens para outros hemisférios, outras latitudes, outras longitudes: lá, até as estrelas pareciam se vestir para que ela pudesse admirar um novo céu.

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