CLÉU ARAÚJO
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Ilari-ilari-ilari-ê!

por: Cléo Araújo

03 MAI

2007

Eu queria fazer isso, exatamente o que ela está fazendo agora. Queria largar a mala com roupas usadas num canto do quarto, enterrar a minha cabeça na caminha, deixar só a bunda para fora e esperar que alguém me chamasse só quando o jantar estivesse pronto.

Eu sei, ela está puta comigo, estava bem mais legal lá. Tinha gente sensacional, muita grama, uns cinco piados diferentes, de pássaros diferentes, um silêncio quase ensurdecedor à noite para embalar nosso sono, um infinito de espaço para ela descobrir e um infinito de chão sobre o qual ela podia correr. Mas essa é a casa dela, a vida dela. Lá pode ser passado, pode ser futuro, só não é presente, embora tão nosso e tão real.

Mas, ao invés de enfiar a minha cabeça na caminha e me resignar à realidade da vida na cidade grande, aos desafios desse mês, ao tanto de trabalho que eu tenho para fazer e ao tanto de coisas que eu terei que fazer sozinha, olha só o que eu resolvo começar nesse final de feriado, depois de 450 quilômetros de estrada: uma limpa nos armários do banheiro! Coisa minha. Eu já quis pintar os rejuntes dos azulejos depois de 14 horas de vôo.

Dou de cara com esse universo infinito de caixas, caixinhas, caixotinhos, sacolas, sacolinhas, tudo abrigando um verdadeiro museu de cosméticos abandonados.

Vou juntando tudo num saco de lixo: coisas nada a ver, vencidas, estragadas, ganhadas de brinde. E lá se vai uma tonelada de sabonetes, ácidos, serums, d-maes, hidratantes, xampus, condicionadores, auto-bronzeadores, kits de hotel mofados (com touca, cotonete e lixa de unha), esmaltes, pomadas, esfoliantes e… Espuma de banho? Quanto dinheiro jogado fora, eu nem banheira tenho! E vai tudo para o l-i-x-o! Esse leave in, aqui, por exemplo. Algum silicone para pontas mais moderno roubou o lugar dele quando ele ainda estava pela metade. E ele deixou de ser interessante e acabou nessa caixinha, no fundo do armário. Venceu em 2005, um tempo em que eu tinha 27 anos, não conhecia o Sawyer e achava que a bola da vez, o marketeiro gostosinho e gentil, vingaria numa história com um algo mais, não n uma troca de olhares fugidios no meio de um show de um New Order.

Tanta coisa, tanto tratamento para pele e para o cabelo que eu até me lembro, ao olhar para um controlador de cachos no ostracismo, que justo quando eu resolvi mandar a maldita chapa junto com a maldita moda lisa à merda, um amigo resolveu elogiar nada mais, nada menos, do que o meu look Rod Stewart. Assassinou por completo qualquer propensão que eu tivesse ao cabelo ondulado. Mas agora, com o tal cosmético aqui em mãos, e longe da data de vencimento… Pode ir para frente da prateleira, meu querido, quem sabe você não me entusiasma a mandar um American Hit na próxima ida à Choperia Liberdade?

Continuo me livrando das quinquilharias e a cachorrinha continua com um emburramento nítido. Sou algoz, eu sei, estou forçando-a a ter uma vida que ela não quer. Estou forçando-a a voltar à rotina. E isso, somado a um monte de frasco de perfume velho, começa a me deixar um pouco deprimida. Eu nunca achei que isso pudesse acontecer, e também não sei se as pessoas que deprimem sabem disso com tanta clareza, porque talvez a clareza sobre a depressão seja justamente o que desconfigura por completo a depressão propriamente diagnosticada. Mas fato é que, além de um monte de cosmético vencido, há também um ilariê ao meu redor, e eu não estou conseguindo entender por que me sinto fora dele. Todo mundo tá feliz, todo mundo quer dançar e eu, que me amo e tenho uma vida sensacional, não estou cantando esse refrão. Por quê?

Eu também não estou infeliz, muito menos querendo roubar o ilariê alheio. Eu só quero descobrir o meu ilariê. Não sei qual é, porque tanta coisa boba me faz dar risada e, ao mesmo tempo, tanta coisa boba parece faltar para que eu dê risada.

Ora é essa vontade de ir querendo ficar, ora é essa vontade de ficar quando tenho que ir…  É sentir ódio do marasmo quando ele se faz real e presente, é sentir saudade do marasmo quando tudo se agita e a gente quer paz e sofá. É a falta de ação para promover a mudança, é uma vontade de querer sair dançando junto com a mulherada da nova campanha da Nike. Deve ser por isso, por essa oscilação emocional que, ao voltar de temporadas fora de casa, eu resolva limpar o banheiro, pintar o rejunte, arear as tampinhas do fogão e preparar bolinhos de bacalhau.

Tire a cabecinha daí e me responda, do auge de sua sabedoria canina: vou acabar feito esse líquido amorfo aqui, vencido, descoberto por acaso quando tiver mudado de textura e cor?

Mas ela não quer ouvir as minhas divagações e neuroses. Ela só quer entender por que raios a gente foi embora e por que raios nós estamos aqui de novo!

É aí que um frasco (quase cheio) de um Pacco Rabanne Ultraviolet vai pro lixo. Esse doeu, me fez lembrar de lemoncello e de um tempo antigo, aquele que quase parece nunca ter existido, um tempo em que eu tinha um ilariê genuíno.

Hoje, séculos depois, sinto-me vazia, sem graça. Tenho que arrancar a fórceps cada palavra, porque elas não querem sair, elas não querem me expressar, elas estão emburradas comigo e fazem coro com a cachorrinha, enfiando suas cabeças na almofadas e me destinando suas bundas, em sinal de protesto absoluto.

Um milagre, sim um milagre, que me permita enfiar a cabeça no travesseiro até que alguém me chame: “vem, pode vir, agora está tudo bom. É um ilariê que só!”

Toda mulher ama um homem, todo homem ama uma mulher, muitos fingem tudo isso, mas não importa. Vive-se esse ilariê da forma mais convincente possível e eu quase acredito nele quando o vejo estampado no rosto de outro.

Eu fico julgando, lembrando de coisas que as pessoas esquecem, enquanto elas vivem bem com as pedras em cima dos assuntos que ameaçam as suas vidas felizes.

Eu não, eu escancaro tudo isso, publico a história do Rod Stweart, faço graça de mim mesma, quero nascer cachorro e não tenho perspectivas de encontrar uma pessoa para sentar ao meu lado no avião nos próximos 34 dias.

E olha que eu jurei, não ia mais me meter a fazer outra viagem sozinha, especialmente para esses lugares de lua de mel, onde o ilariê é política compulsória. Mas lá vou eu, ué, ou vou ficar em casa o resto da vida, regando o vaso de alecrim, lendo Allan de Bottom, assistindo Two and a Half man quando preciso rir de alguém que solta pum debaixo do cobertor, limpando armários de banheiro, pintando rejuntes e fritando bolinhos de bacalhau?

Tem que ir, tem que viver, tem que esculpir um ilariê nem que seja com um prego. Tem que ser feliz, na alegria, na tristeza, na saúde, na doença, na minha, só na minha. Mas que vai ser um ilariê honesto pra caralho, ah, isso vai.

E lá se vai pro lixo um frasco de creme anti-idade. Esse, eu nunca usei.

E desse, eu vou ter que comprar outro amanhã.

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