CLÉU ARAÚJO
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No mercado, com meu futuro marido

por: Cléo Araújo

01 SET

2006

Era para ser uma comprinha simples. Duas três coisinhas e ainda daria tempo de chegar em casa para assistir American Idol. Era o ano de Kelly Clarckson.

Kelly perdeu a vez quando avistei, entre brócolis, acelgas e rúculas, um gorrinho de lã cinza e um par de olhos azul-esverdeados do tipo que não se veem mais por aí, especialmente na seção de legumes.

Fazia tanto tempo que eu não paquerava que achei tudo aquilo muito romântico, até a música da Sade na rádio do supermercado me pareceu agradável. Afinal, que culpa tinha eu se a oportunidade surgia ali?

Dei a volta.

Passei pelo rabanete, pelo salsão e pelo espinafre. Lá estava ele: rapazote de 1,80, cabelo castanho claro, Ipod no ouvido e calça de moletom. Achei tudo muito sexy. Tirei a presilha do cabelo e continuei a fazer as minhas comprinhas. Sem pressa. E agora, de cabelo solto e apreciando a vista.

Notei que me notou.

Dirigiu-se, então, à prateleira dos leites. Eu, ato contínuo, passei a escolher iogurtes. Enquanto eu checava a data de validade de uma ricota ele parecia fazer amizade com uma caixa de catupiry. Fui obrigada a me dar conta de que nada mais havia a se fazer ali nos laticínios. Então, pela primeira vez, nos separamos.

Houve segundos de angústia em meu coração, mas felizmente nos encontrarmos na gôndola de massas secas, molhos e sopinhas instantâneas, a mais romântica de todas as gôndolas.

Ele escolhia um calibre de espaguete e eu me peguei colocando saquinhos de missoshiro dentro do carrinho. Eu nem gosto de missoshiro de saquinho. Sacrifício necessário.

Um rápido cruzamento de olhares e uma risada tímida na frente dos picles de pepino. “Ah, eu já fui melhor nessas coisas”, sussurrei para as conservas.

Chegamos juntos então à prateleira das carnes embaladas. Ali ficamos, lado a lado, apreciando bandejinhas de medalhão de filé mignon, picanhas maturadas e pequenas peças de salmão. Aproveitei a oportunidade para reparar nas suas compras de perto: quase gay de tão fantástico. Molho inglês, azeite extravirgem, cream cheese, abobrinhas italianas, azeitonas pretas, amaciante, sabão em pó e álcool gel. Era o homem perfeito traduzido por um carrinho de dois andares.

Dali ele foi para o corredor das cervejas. Avistei-o pegando uma caixa de Xingu. Decidi que a resposta para o convite que ele me faria para jantar na sua casa seria “mas é claro”.

Quando ambos pareciam já haver terminado as suas compras, o confronto final.

Foi na ala dos vinhos.

Um olhar menos tímido do que o anterior poderia até se desdobrar numa conversinha infame sobre o tempo ou até sobre os benditos vinhos que jaziam dionisíacos à nossa frente. Poderíamos, ainda, ter um primeiro encontro de verdade, nossa primeira refeição: degustaríamos juntos os pedacinhos de focaccia congelada que a promotora acabava de assar bem ali do lado, eu seu pequeno estande. “Hum, muito boa essa de tomate seco”, “Verdade?” e aí bastariam mais três palavras para nos amarmos e respeitarmos até que a morte nos separasse. Mas o plano foi sumariamente abortado pelo sommelier, enxerido, que puxou papo com o meu futuro marido antes de mim, e ainda sobre uma promoção qualquer de uns chilenos encalhados. Saí cabisbaixa, sem o meu Pinot, sem a conversinha mole com o meu cônjuge to be e com as rodinhas do carrinho fazendo aqueles ruídos embaraçosos.

Ali estávamos, então.

Cena final. Caixas lado a lado.

Tentei sincronizar a passada das minhas compras com a passada das compras dele, num ensaio derradeiro e patético de que pudéssemos dividir pelo menos o elevador até o S1.

Preenchi cupons para concorrer a um Renault, saquei um dinheirinho no caixa eletrônico, olhei as flores e os livros. Estava quase pedindo para embrulhar um sabonete líquido para presente. Não tinha mais como enrolar. Conformada, desci sozinha no elevador para fazer hora no estacionamento.

Já estava dentro do carro quando ele surgiu. Olhou em volta. Não me viu. Maldito insulfilme.

Dirigiu-se para o seu carro.

Manobrei e, lentamente, passei ao seu lado, com a janela abaixada.

Morri de amor quando ele me deu um sorriso. Mas subi a rampa e fui-me embora. Para sempre.

Enquanto descarregava as compras na garagem do prédio, pensei que, em algum lugar, naquela noite, provavelmente ali mesmo, bem perto, em alguma daquelas janelas, um homem perfeito tomaria uma Xingu, saborearia abobrinhas italianas ao molho de cream cheese e lavaria suas calças de moletom com amaciante de perfume Aloe Vera.

Enquanto isso eu estaria ali, na companhia de um missoshiro de saquinho, rogando à vida que fizesse melhor do que um carrinho de dois andares e um dia tomasse vergonha nessa cara e me apresentasse oficialmente a um homem assim. Perfeito. Do tipo dono de casa, olhos azul-esverdeados e que reconheça o verdadeiro valor de um molho inglês.

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