CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Intocável

por: Cléo Araújo

17 OUT

2007

Gostaria de ser eu poesia do mundo.

De estar quase sempre sentada sobre ele, como se minha poltrona preferida fosse.

Estaria lá, de pernas cruzadas e descalça sobre o mundo. Uvas doces penderiam sobre meus lábios e ninfas voadoras trançariam meus cabelos.

Renunciaria de uma vez por todos ao meu cargo de caçadora de inspiração em outra gente. Gente que não se esforça… Eu sim seria uma musa trabalhadora. Ninguém nunca mais sofreria com “brancos” ou lapsos criativos. Nunca mais… Deitada em alguma pedra à beira mar ou bem alto em algum pedestal de bronze eu ficaria, causando furor na rude plebe e fecundando as mentes dos artistas. Seria uma loucura grega de tanto que todo mundo precisaria falar de mim em verso e prosa.

Fora do Olimpo, eu posaria naquela chez-long de veludo magenta, naquele ateliê charmosamente empoeirado, que pertence àquele artista vintage do Village, do Marais ou da Vila Madalena. Lá, se vê: há telas e pincéis se espalhando feito explosão criativa incontrolável sobre os móveis e tapetes, tamanha a epifania do artista porque diante de mim e de minha pele de musa. Ele não acerta a cor, quer sempre chegar mais próximo do real; mistura, acrescenta água, rosa, sangue, precisa pintar minha pele da cor que verdadeiramente é. Muito depois, ele dá finalmente a última pincelada. Está descabelado, sem banho, exausto. Mas feliz, pois estou ali, de alguma forma pertencendo a ele e às suas mãos sujas e trêmulas.

Eu, uma vez só, seria a base quase humana daquele texto que fala em nuvens, flores de cerejeira, viagens a Veneza e amor sublime. Eu assistiria à insônia do autor. Ele está ali, entorpecido pelo uísque, mas não consegue parar. Pensa demais, pensa além do que consegue suportar e de tanto em mim pensar escreve em cinco noites o conto da sua vida. Ele é feliz porque tem musa. Mas quem tem musa bebe e cria em meio a suspiros. Na musa não se toca, a musa não se conhece, a musa nunca se tem. O conto roda o globo, sou musa traduzida para catorze idiomas… Estou deitada sobre ele, vê? Como se minha liteira preferida fosse.

Sou Garota de Ipanema, Boneca de Luxo, Bette Davis. Sou transformada em acorde e refrão. Ana Julia, Luiza e Beatriz. Todos cantam meu nome em coro como se me soubessem loira, branca, esguia e intocável. Todos sabem que tenho Greta Garbo’s standard sizes sem nunca terem sequer chegado perto de mim. Se perguntam, intrigados, “Será que ela é moça, será que ela é triste, será que é o contrário, será que é pintura…”

A musa ignora, não se sabe musa de nada.

É Vênus de Milus, Monalisa, é moça com brinco de pérolas.

“Happy birthday, Mr. President”, sou rainha de Film Noir! Vou de princesa-atriz a nome de música de artista cult-pop-meio-libanês e desfilo impávida, nada temo, temeria o que, enfim? Se vivo assim, sem criar nada de nada, só nessa doce ignorância de ser musa?

Meus dias seriam ditosos, pois existiria do lado de lá da criação.

Seria alento e tormento de compositor.

Seria platônica, inexistiria de perto, reinaria de longe.

Estaria sobre o mundo e jogaria nele meus cachos de musa.

Sumiria, mais tarde, como no fundo de um palco, com os aplausos da platéia como meu rastro e meu manto.

Daria adeus a todos com minha voz de cantora francesa.

Iria embora.

Desvairar um novo alguém.

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