CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Margaridas autóctones

por: Cléo Araújo

13 NOV

2007

Eu sempre achei bonito ser leve.

Natural.

Comer frutas, tomar chás, beber muita água e ter os poros fechados. Sempre achei muito bonito ter cara de propaganda da Neutrogena.

Pele de sueca.

Sempre achei bela a beleza da Ashley Judd, da Juliette Binoche, da Liv Tyler, da Marisa Tomei em “Só você”. Elas são todas belas, leves, têm essa beleza salmão. Têm essa cara de quem tomou uma ducha e foi viver.

Sempre achei bela essa beleza do banho, do rosto rosado que sai do chuveiro pronto para uma festa, do cabelo escuro e brilhante, que só se lava com xampu sem sal e que se deixar secar ao vento.

Sempre achei bela a aura de sabonete neutro glicerinado, a beleza de quem cuida das plantas do jardim descalça e de roupas brancas, a beleza de quem não se esforça, não se escova demais, não se pinta demais, não se preocupa demais.

A beleza que é assim, uma beleza de pêssego, não toma vinho tinto. Só branco. Mas é uma beleza que troca qualquer bebida alcoólica por uma também bela xícara de chá de hortelã natural. Não porque faça bem, mas porque essa é uma beleza que adora chá de hortelã. E maçã com canela, e grãos, e andar no meio dos lençóis brancos enquanto secam estendidos nos varais do lado de fora, onde sopra um vento morno e brilha um sol gentil.

Sempre achei bela a beleza de assar tortas de maçã, a beleza da propaganda de adoçante, de fazer ioga de manhã, num colchãozinho branco, de rabo de cavalo, olhando para o vale que se espreguiça em frente a uma sacada de madeira branca.

Uma beleza de vale, aliás. De brisa da manhã que traz um cheiro de limão; uma beleza de verão, de água gelada suando a jarra de vidro, de dormir em lençóis de linho branco e jamais, jamais usar dourado, vermelho ou unhas compridas.

Sei que sempre admirei essa beleza como se fosse um lugar ao qual um dia eu iria chegar. Era só esperar meu corpo crescer, a pele se aquietar, e tudo me deixaria naturalmente bela, lisa e aveludada. Cestas de margaridas gigantes cresceriam naturalmente em minha casa. Eu seria loira, mas graças aos banhos de leite que daria no cabelo (como bem me ensinava Xuxa, talvez numa atitude premonitória). Eu não teria na geladeira coisas como lingüiça, bacon, queijos amarelos, cerveja ou salsicha. E não seria assim por uma questão de ser light, de viver de dieta, hábitos tampouco naturais. Seria assim porque seria bela. Tanto que teria sempre à mão bolinhos de chocolate com nozes, assados por mim numa dessas tardes naturais, do tipo em que as cigarras cantam.

O dia, é claro, chegou. O corpo cresceu. Pouco, mas cresceu.

Fui sendo apresentada ao mundo real, muito distante do mundo da Ashley Judd e da Marisa Tomei em “Só você”. Ele incluía, por exemplo, fios de cabelo branco (ainda mais rebeldes e antinaturais do que os outros) e manchinhas na pele.

Fui jogada dentro de um mar de processos industrializados, construídos todos com o objetivo de me fazer parecer o mais natural possível. Artificialmente, é claro.

Existem milhares de artificialidades disponíveis para que eu possa parecer natural: alisamentos instantâneos e definitivos, vícios variados (sólidos, líquidos, esfumaçados, em pílulas, cápsulas ou em pó), tintas (em um espectro de cores maior do que o dos cristais), corretivos, chapinha, anti-flacidez, rinsagem, depilação a laser, tonalizante, anti-oleosidade, reflexos, anti-envelhecimento, luzes, anti-rugas, relaxamento, baby-liss…

Cabelos secos ao vento sem que antes o tenhamos exposto a um combinado de ácidos e bases? Algo que infelizmente eu não conhecerei nessa vida. Sou escrava dos anéis de carbono, dos isômeros e dos polímeros. Preciso sempre do meu arsenal e mantenho com ele essa relação de amor e ódio. Creme sem enxágüe, tônico firmador para o rosto, tônico relaxante para nuca, pinça, alicatinho, creme para o corpo (um da cintura pra cima, outro da cintura pra baixo), limpeza de pele, pealing de diamante, máscara, esmalte (“nude”, tieta, bombom, café expresso, tomate), auto-bronzeador, protetor solar, silicone para pontas duplas, clareamento dos dentes, lipoaspiração, mega-hair, glitter…

Photoshop.

A natural descoberta é que qualquer pessoa normal leva horas para ganhar aquela cara de banho. E que pele de sueca, só a sueca tem. Aprendi, além disso, que não conseguiria trocar a minha geladeira por aquelas das ovolactovegetarianas que dão as dicas de beleza nas revistas e fazem escárnio com a nossa cara (essa, de gente normal). Elas têm a pachorra de dizer que não fazem nada para serem assim, como aparecem nas fotos depois de duas horas com cabeleireiro, três com o maquiador e cinco nas mãos do editor de imagem. O segredo delas é só muita água. Se elas beberem o tanto de água que dizem, devem passar o dia mijando. Garanto que não sobra tempo para outra coisa na vida a não ser filtrar.

Mas também sei que se pudesse acordar todos os dias diante de um vale, se pudesse me espreguiçar na minha sacada de madeira branca, mesmo sem o colchãozinho da ioga, eu provavelmente seria mais bela, sim. E isso é real.

Hoje eu vivo a verdade dentro da minha geladeira. A cerveja e o bacon fazem mais parte da minha vida do que o chá de hortelã e as cestas autóctones de margarida.

Quanto à imagem que vejo refletida no espelho depois do banho?

Uma mulher molhada.

E ela lê meus lábios…

“Só você, mesmo, hein?”

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.