CLÉU ARAÚJO
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Maria Fumaça

por: Cléo Araújo

14 AGO

2009

Era em um trem que eu deveria encontrar o grande amor da minha vida.

Eu estaria na poltrona da janela do vagão 45, tomando um café e lendo Alain de Botton quando esse rapazote, ares de Ethan Hawke, cabelo propositalmente ensebado, jaqueta de couro velha, calça jeans e All Star de cano alto preto meio sujo viria se sentar ao meu lado. Ele abriria o seu “Lonely Planet – Europe” e esticaria o olho sobre mim na tentativa de ver o título e o idioma do meu livro. Era assim que tudo ia começar.

A conversa aconteceria espontaneamente porque, bom, porque ele se revelaria espirituoso e simpático. Ele também teria esse dente incisivo esquerdo meio tortinho, o que lhe daria um charme especial, bem aquele tipo de charme odontológico que eu identifico quando cruzo com os potenciais amores da minha vida. Ali, no balanço dos trilhos, seguiríamos por cidadelas românticas, nos perdendo de vista toda vez que o trem atravessasse algum túnel. Muito romântico. Saltaríamos, então, num ponto qualquer de nossa rota ferroviária para passarmos o dia vagando. E olha que nem precisaria ser em Viena. Poderia ser numa vila perdida no norte da Itália. Ou numa simpática aldeia portuguesa. Ou numa comunidade montanhosa um pouco antes de Glasgow. Só não daria para ser no Brasil porque, veja bem: era no trem que eu deveria encontrar o grande amor da minha vida. Num trem romântico, que tivesse no mínimo um vagão restaurante. E isso ainda não há.

Sei que passaríamos o dia caminhando entre as parreiras, ou por cemitérios etruscos, ou admirando ovelhas branquinhas cruzando uma estrada fofa e ouvindo ao longe o som de uma harpa, ou o de uma gaita de fole ou o de um cravo renascentista. E nos descobriríamos perfeitos um para o outro tomando uma garrafa de vinho no gargalo, sobre um gramado forrado de microflorzinhas amarelas. Assistiríamos às estrelas se apagar uma a uma, quando já fosse quase de manhã, depois de termos nos amado e nos inebriado no hálito e na pele um do outro.

Era assim que era para ser.

Mas, como em todo roteiro meio francês, meio Nancy Meyers dessa vida, a realidade nos separaria ao final dessa doce jornada de pouco mais de vinte e quatro horas.

Concordaríamos, aos nos despedirmos na plataforma, que o reencontro deveria ficar por conta do acaso. Aconteceria, quiçá, durante um show do Radiohead em Brighton, porque eu seria muito, mas muito internacional, percebem? Ou virtualmente, durante uma busca pelos nossos nomes no Google (era o máximo que daria para se fazer numa era pré Web 2.0). Ou quem sabe, e levando-se em conta a pequeneza do universo, talvez nos esbarrássemos comprando queijos e pães para fazer foundue numa delicatessen qualquer da Vila Madalena. Fato é que grandes amores não trocam telefone. Muito menos como esses, encontrados num trem.

Não acontecendo em nenhuma dessas situações, o reencontro poderia se dar, digamos, nove anos depois (a única coisa que eu pedia a Deus – ou ao santo dos maquinistas de trem – é que fizesse acontecer antes dos trinta, por favor). Ele teria se tornado escritor. E viria para São Paulo lançar seu livro, no qual relataria esse encontro com uma garota brasileira em um trem na Europa – o que teria facilitado o interesse de uma editora local para traduzir o livro para o português. É claro que eu iria encontrá-lo (de surpresa) na Livraria da Vila da Alameda Lorena. Seria, sei lá, muito esquisito vê-lo de novo. Mas muito romântico. Talvez ele tivesse um filho, até. Ou não. Iniciaríamos, mais uma vez, o nosso hábito de vagar. Entre um café e outro, descobriríamos que nossas vidas haviam tomado rumos diferentes do que imaginávamos ser nove anos atrás. Eu trabalharia numa ONG (sic) e ele estaria prestes a vender seu primeiro Best Seller – que tratava, por supuesto, sobre mim. O dia terminaria com ele perdendo o voo de volta seja lá pra onde for que ele tivesse de voltar. E era assim que seríamos felizes para sempre, nessa cena se fechando em fade, e guardados aqui detalhes íntimos que não me vejo na obrigação de revelar a ninguém.

Nada disso ainda aconteceu.

E eu nem posso reclamar.

Uma vez, conheci um fulano num trem.

Mas se eu chamo o fulano de fulano, você já pode imaginar que não ouvimos gaitas de fole e nem passeamos por cemitérios etruscos. O fulano, coitado, era chato. Pegajoso. Mala. E não tinha ares de Ethan Hawke. Além disso, a única coisa verdadeiramente cinematográfica que aconteceu comigo sobre trilhos foi não trancar direito a porta do banheiro e ser pega fazendo xixi meio em pé, meio sentada, por um italianinho safado de uns 17 anos que riu na minha cara de Veneza a Napole.

O romantismo morreu em mim, junto com meu complexo de Julie Delpy.

Desisti desses encontros ferroviários.

Faz tempo que só viajo de carro alugado.

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