CLÉU ARAÚJO
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Melhor assim

por: Cléo Araújo

16 JAN

2009

Eu ainda não sei aonde a gente vai.
Se àquele restaurante do ravioli de pato que você amava tanto ou àquele bar de jazz de onde saímos de pileque. Sim, foi há milênios atrás.
Só sei que vou estar bem nervosa quando você parar na frente de casa para me apanhar.
Vejo você descendo do carro (ou do taxi) para me dar aquele “oi” mais acalorado das pessoas que não se veem há muito tempo, especialmente aquelas, que já tiveram alguma (boa) intimidade, mas que ficaram por eras afastados um do outro. Já quase me vejo pensando numa gracinha qualquer para quebrar o gelo daquele primeiro beijinho no rosto e daquele abraço demorado – que eu vou interromper para entrar no carro antes de você perceber que meu coração está feito repique de escola de samba.
Ainda não sei sobre o que vai ser o começo da nossa conversa.
Se sobre a crise econômica mundial ou sobre o novo filme do Woody Allen.
Mas eu acho que você vai falar mais do que eu. Dessa vez.
Porque você é outro, eu sou outra, o presidente dos Estados Unidos é outro, enfim, a vida mudou muito desde aquele último gin-tônica.
Eu acho que tudo que você me disser vai me interessar. Ainda mais depois de anos sem que eu tenha prestado real atenção em alguém – mesmo que tentasse convencer a mim mesma, o tempo todo, que os assuntos deles me interessavam.
Num dado momento, vai até parecer que você quer se abrir, mas que tem medo, e que prefere esperar mais para entrar nos detalhes mais íntimos da sua vida num tempo em que a ela eu não pertencia mais. Certo você! Eu também vou preferir ficar na minha quando o assunto for o meu último relacionamento ou o fato de eu ainda trabalhar no mesmo lugar até hoje, sendo que você, além de carreira, já mudou até de religião (sim, porque agora, eu descobrirei, você tem uma!).
Eu vou te achar um cara bem mais centrado, melhor resolvido, senhor de si e, bom, senhor de mim, naturalmente. Só que você não vai saber disso. É que eu vou fingir que não estou me derretendo por você, mesmo que, no fundo – e antes da gente ter comido o salsão e a cenoura do couvert – o meu sangue esteja correndo sob temperaturas venusianas.
Mas como você é outro, eu sou outra, o presidente dos Estados Unidos é outro, enfim, como a vida mudou muito desde aquele último gin-tônica, eu não vou transparecer essa situação tão pessoal do meu sistema circulatório. E você vai ficar surpreso porque vai me achar tão tranquila e vai pensar que puxa, eu não era assim. Vai se lembrar de que achava até meio charmosinho o fato de que às vezes eu falava tão rápido quanto um locutor de corrida de cavalos. Mas ali, não. Porque eu vou falar devagar. Vou até comer um pedacinho de peixe com risoto, bem sossegada, enquanto você me serve mais um copo de Merlot e dá a primeira garfada no seu ravioli de pato. Sim, algo me diz que a gente vai acabar indo até aquele restaurante que você adorava. E que eu continuei a frequentar por todos esses anos.
Se vamos falar da comida? Só se você puxar a conversa para testar os meus conhecimentos gastronômicos e para me agradar, é claro. Sim, você vai querer me agradar. Especialmente quando começar a achar que eu estou muito na minha para quem não te via há tanto tempo.
Daí o papo fluirá naturalmente para músicas e filmes. É, pensando bem, vai ser inevitável que falemos sobre o novo filme de Woody Allen. Passaremos rapidamente por assuntos Obâmicos, faremos referência à fusão de bancos, à sapatada no George Bush, à guerra na faixa de Gaza, à iminência do fim do mundo em decorrência do funcionamento do Grande Colisor de Hádrons e, é claro, à crise econômica global. Aí você vai me ensinar algumas frases onomatopaicamente engraçadas em húngaro, nós vamos rir e pedir mais uma garrafa de vinho.
Quando eu começar a contar sobre o apartamento que estou reformando, você, sem dizer nada, vai se lembrar de como me achava romântica. Vai se lembrar da vela com aroma de alecrim que acendi ao seu lado da cama numa noite em que – você nem faz idéia – eu tive medo, de tão feliz que me senti. Você vai se lembrar de que, todas as vezes que nos falávamos por telefone, falávamos juntos, nunca dando o timing certo da espera da fala do outro, e que você achava isso irritantemente engraçado.
Mas de repente, enquanto eu estiver articulando as palavras no meio da entorpecimento dos goles de vinho e da sua presença quase insólita na minha frente, mil perguntas aporrinharão meu cérebro – mesmo eu percebendo que não é a hora para você revelar os tais detalhes íntimos. E eu vou te achar tão perfeito para mim, de novo, que vou começar a pensar.
Será que um dia você chegará a me conhecer direito? A verdadeira eu? Essa, que dorme com a cachorra na cama e anda com elástico de cabelo feito de meia o dia todo na cabeça?
Será que algum dia eu vou conhecer seus segredos, aqueles desprezíveis e ordinários? Porque não é possível que você não tenha algum, apesar dessa sua cara de banho. Será que algum dia você chegou a saber quem eu fui de verdade enquanto estávamos meio juntos? Será que estivemos mesmo meio juntos? Será que você precisa saber de alguma coisa minha que já não esteja à mostra? Será que adianta fingir que sabia de alguma coisa? Será que eu quero saber de um outro você que não esse aqui?
Para ser sincera, talvez, hoje, você nem caiba mais na minha vida. Porque sim, foi tudo meio lindo, mas meio triste também, não? Meio abortado. Meio sem começo, sem meio, sem fim. Metade de alguma coisa.
E de repente, eu não acredito mais em nada.
Não retorno seu telefonema.
Justamente porque você é outro, eu sou outra, o presidente dos Estados Unidos é outro e a vida, meu caro, mudou muito desde aquele último gin-tônica.

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