CLÉU ARAÚJO
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Memória básica

por: Cléo Araújo

25 JUN

2008

Era viciada em ser sexy.

O mais obviamente sexy possível.

Tinha três cintas-liga: uma champanhe, uma verde-mato e uma preta. Tinha também uns dez babydolls, todos com as calcinhas combinando. E tinha o tamanquinho de salto, com pluminhas rosas, cara de prostituta chique, cortesã do século XIX. Esse ela só usava em datas muito especiais. O boá branco, estilo dançarina do Moulan Rouge: maior xodó. Seu sonho, aliás, era colocar um trapézio no meio do quarto para brincar de Satine.

Ela tomou aulas de dança do ventre.

Freqüentou a academia de flamenco.

Fez um curso de streap-tease on line – copiava certinho o número de Demi Moore só de camisa branca.

Estudou tango. Charlestone. Lap-dance. Poli-dance. Tudo para ele. Seu novo e eterno amor.

Ele? Gostava, é claro. Divertia-se, sim, se sentia todo especial quando ela armava uma produção dessas. E quando era de surpresa, nossa, benzadeus!

Mas, mesmo cuidando para não parecer desfeita, ficava esperando que tudo chegasse ao fim para poder se enrolar com ela num cobertor daqueles bem simplesinhos, de onde pretendia não sair até a manhã seguinte.

Fato é que ela nunca prestou muita atenção no que ele achava. Vício é vício e ela era sexy. Tanto que quando ele vinha, ela escondia o cobertor simplesinho que atrapalhava a sua performance no fundo do guarda-roupa. E não é que mesmo assim ele encontrava o bendito? E eles acabavam sempre enrolados nele, maculando a cama de lençóis perfeitos com uma manta velha e cheia de bolinhas.

Um dia, apesar de ela ter dado um sumiço definitivo na manta cheia de bolinhas, apesar de todas as plumas, de todas as transparências, de todas as rendas e cetins; apesar da música árabe e da produção com cara de mil e uma noites no dia dos namorados; apesar do arranjo da melodia japonesa e do seu belíssimo quimono de gueixa naquela noite regada a sakê, apesar do livro do Kamasutra na cabeceira, dos óleos, das massagens eróticas, das ostras e morangos com champagne… Um dia, o relacionamento acabou. E foi num dia qualquer, sem produção nenhuma, na padaria, em frente a um café expresso que esfriou.

Então ela maldisse todas as quinquilharias étnicas do seu guarda-roupa, todas as apostilas xerocopiadas dos cursos de sexo tântrico, todas as receitas de poções afrodisíacas e todos os endereços das melhores lojas de lingerie de São Paulo. Não precisava mais daquilo, daquele maço de canela em pau que não servia nem pra quentão, daquelas pétalas de rosas ressecadas que de bálsamo para banhos excitantes só serviriam pra juntar mofo, daquela porcaria daquela meleca daquela praga daquela inutilidade daquelas calcinhas fio-dental, que ela não usaria nunca mais na vida porque elas incomodavam pra diabo e porque nenhum homem merecia vê-la de fio dental. 

Para ela bastava estar enrolada em um cobertor simplesinho que a aconchegasse, onde ela ficaria não só até a manhã seguinte, mas até o mundo acabar. Vestia suas calcinhas de algodão, seus pijamas de flanela, sua pantufa do Garfield e tomava uma canja de galinha no jantar para levantar um pouco do corpo e um pouco do que sobrara do seu espírito. Era assim que ela pretendia viver sem ele. Ela estava cansada, muito cansada de ter sido tão sexy à toa.

Ele, depois de um tempo, já não se recordava mesmo muito bem daquelas noites customizadas. Esqueceu a gueixa, mal se lembrava do dia dos namorados ao lado da “odalisca”, passou longe de perceber a diferença entre os passos de tango e os de flamenco. Era tudo uma lembrança única daquela mulher que ele amava, sim, mas que parecia sempre muito, sempre mais, quase inventada.

Mas ele se lembrava daquelas poucas coisas deliciosamente imperfeitas sobre ela. Ah, disso ele se lembrava. Do seu nariz vermelho quando sua rinite atacava – e ela espirrava dezessete vezes seguidas. Tão linda, tão linda. Ele se lembrava daquela madrugada fria, quando ele chegou de viagem de surpresa e ela abriu a porta do apartamento com aquela camiseta da “Hard Rock – Orlando” que tinha no mínimo uns dezesseis anos. Ele se lembrava dos seus pés com as meias de lã alaranjada de elástico frouxo e daquela calcinha de algodão cor-de-rosa que ele simplesmente nunca, nunca tinha visto. Ah, o abraço apertado na soleira e o cheiro do xampu no seu cabelo ainda úmido. Se a vida deles se resumisse àquela noite, teria ficado com ela para sempre, se ela quisesse.

Dessas coisas tolas e prosaicas sua memória se alimentava. Era uma memória nua, do tipo que ele gostaria de poder enrolar num cobertor. Eram lembranças sinceras: ela escovando os dentes. Ela com soluços. Ela fazendo uma baliza. Ela varrendo um copo quebrado. Ela se cortando com um caco. Ele colocando um band-aid no seu dedo.

Não era uma memória de seda, nem de cetim, nem de plumas, nem de véus. Era uma memória básica, de algodão. Tão simples e tão sincera quanto uma Hering velha que ele havia deixado para sempre em uma gaveta onde ela guardava suas belas calcinhas.

Incomodas, perfeitas e esquecíveis.

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