CLÉU ARAÚJO
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Mentalize, mas nem tanto

por: Cléo Araújo

14 ABR

2009

Ela tinha fome de mundo, eu via. Enquanto todas as outras mostravam o novo balanço no movimento dos fios de cabelo, ela queria saber sobre o movimento da terra e dos astros, os do cosmo, não os da minissérie na Tv. Ela tinha a sede da ciência, dos mecanismos fantátiscos que, de alguma forma, faziam a engrenagem desse mundo funcionar. Ainda me encanta, sabia? Aquele seu jeito de se impressionar com o corriqueiro sempre me lembrava de que a ’única coisa de que precisamos para nos tornarmos bons filósofos é a capacidade de nos admirarmos com as coisas’ ; seus olhos eram como que os de uma criança descobrindo as nuvens e os dedos da mão. Nunca era superficial… era tão profundo e filosófico, ao mesmo tempo que tão simples e envolvente. Ela, definivamente, não pertencia a essa mundo: era do tipo de pessoa que acreditava ferrenhamente no socialismo de Marx e Engels, na Reforma Agrária, na Paz entre as Nações; ela tinha uma sede da ONU escondida dentro de si, mas que deixava transbordar e todo mundo via. Era taxada de ’a utópica’ pelos socio-nazistas, mas e daí? Era só a minha menina carregando os séculos da História nas costas…


Sinto saudades dela, principalmente quando lembro que ela nunca existiu. Bem, fisicamente falando, não, mas, sim, a inventei para dar vida própria às idéias que tenho; idéias tão medonhas que me obrigam a soltá-las. O pior de tudo é o medo que sinto de essa criação se voltar contra o criador, no caso, eu. Agora, por exemplo, ela me olha como quem quer alguma coisa; agora se aproxima com passos lentos e cheios de ritmo, tango, talvez; meu Deus, agora mostra toda a fome com a qual eu a criei.


O que fazer agora, com esses seus olhos tão famintos me devorando o corpo assim?


Isso mostra que eu sou de fora para dentro, e de dentro, para mais dentro ainda. Me alimento da minha própria poesia, boemia… corpo.


 

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