CLÉU ARAÚJO
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Meu nome não é Rocky

por: Cléo Araújo

21 JUL

2012

Primeiro round.

“Eu não vivo mais sem um Dormizol. Ontem não pregava o olho, tomei dois. Acordei cansada mesmo assim. Meu médico falou que eu preciso desestressar, fazer ioga, acupuntura, tirar álcool, gordura, T.V., fritura, tintura e tabaco da minha vida. Falou também que banana maçã pode ajudar. Recomendou chá verde. Aí fui comprar tudo da nova dieta e ficou mais de duzentos reais. A gente gasta mais pra ficar saudável do que pra ser trash nessa vida, é um absurdo.“Não compre pão francês de manhã porque aí eu sinto o cheiro e dá vontade de comer e eu não posso comer pão francês”! De que adianta ir pra academia cinco vezes por semana e depois se acabar em pão francês, não é?”

É…

Segundo round:

“Meu, tem cinco baladas boas essa semana, tipo, tá ligada, pelo menos duas que a gente tem que ir, meu. Não dá pra ficar assim, de bobeira, meu. Vai tá super lá, a galera toda vai. Eu já pus todo mundo na lista vip da Plutus, meu, sou amiga dos caras lá, to lá todo sábado. Você pode falar com a Tuti, a Bat, o Toti, a Raf e o Gus que a gente vai tá lá, no matter what. Meu, quero muita Veuve, meu, super demais, cara, super super mega blaster.”

Hum, obrigada, realmente tentador… Mas não…

Terceiro round:

“Você vê, né, dona, quando acontece com rico, ninguém faz é nada? Acha bunito, isso. É como disse um camarada meu, se fosse um qualquer, e não gente rica, queria ver se não ia pagar. Aqui no Brasil é tudo assim, mexe com rico, pra senhora ver. Semana passada mesmo eu tava vendo no Jornal esse tal desse “Chef” Guevara, lá da Colômbia. A senhora vê, se fosse um homem desse que fosse presidente do Brasil duvido que ia ter esse tal desse traficante que matou mais de mil vendendo tóchico por aí nas escolas. Sabe, dona, falta uns homem de linha dura nesse país. Com o Matufius não era sim, não! Ele roubou, tá certo que roubou, mas e esse outro aí, do senado aí? Ladrão, dona. Ladrão safado! Tudo igual. Pelo menos tem gente que rouba e faz.”

O senhor pode encostar ali perto daquela caçamba, por favor?

“Posso sim, senhora. A senhora até desculpa ficar assim fazendo o ouvido da senhora de pinico, mas sabecomé, vem um safado e fecha a gente no trânsito e a gente ainda tem que aguentar quieto né.”

Sei bem como é, senhor, xiiii, como sei. Vinte cinco reais, tá aqui. Tá certo, pode ficar com o troco.

Quarto round:

“Ô, Dona, os rapazes da desentupidora vão ter que entrar aí no seu apartamento amanhã. É que deu um problema no 111 e eles vão ter que mexer nuns canos que parece que vêm daí. Devem chegar às oito, mas pode ser que fique sem terminar por causa do final de semana. Ah, hoje dedetizaram lá embaixo, então melhor nem sair com a cachorra. Depois eu mostro pra senhora onde é o estacionamento onde os moradores vão colocar o carro até terminar a reforma da garagem, viu. Fica umas três quadras subindo aqui a rua, mas só deve precisar de uns dois meses pra ficar tudo pronto lá no subsolo.”

Ok…

Quinto round:

Alô?

“Meu, tem cinco baladas boas essa semana, tipo, tá ligada, pelo menos duas que a gente tem que ir, meu. Não dá pra ficar assim, de bobeira, meu…”

Ah, pelamor, essa conversa eu já tive hoje, adeus!

Sexto round:

“Oi, e aí? Lembra de mim? Nossa, a senhorita anda sumida, hein? Por onde anda? Nunca mais me ligou! Depois daquela vez em que eu mal tratei o garçom, o manobrista, o cachorro de rua e o vendedor de flores você não atendeu mais meus telefonemas, tá sempre ocupada, trabalhando, viajando… Da última vez estava fazendo aquele curso avançado de plantio de hortaliças ornamentais, se não me engano. E aí? Como foi? Olha, assim você vai ficar pra titia, hein. A gente precisa sair…”

Não, puts, não vai dar… 

 “Ah, por que não? Não vai me dizer que já tem algo marcado? Até o dia 23 de dezembro? Nossa! Ah, então eu posso dar um pulinho aí. Por que não? Por que, me dá uma boa razão pra isso, por que, me diz, vai ficar aí com sua cachorra, é, pensa bem…”

Vou fazer o Módulo 2 do curso de hortaliças ornamentais. Começa hoje, aliás, agora. Adeus.

A toalha, por favor, alguém, a toalha.

Nocaute.

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