CLÉU ARAÚJO
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Minhaninha

por: Cléo Araújo

16 JUN

2011

Um fôlego cor de pêssego enche o peito de tudo o que é bom e de tudo o que é paz.

Não importa o cinza do frio, o opaco do trânsito ou qualquer outra coisa incolor ou calcinada do tipo que não tem a textura macia do salmão ou o cheirinho doce do cor de rosa.

Só importam as fadinhas vestidas de tutu que voam feito vagalumes ao redor do mosquiteiro enquanto derramam seu pó furta-cor de bondade e saúde sobre o berço.

De repente tudo o que importa são coisas assim, que tenham alma tutti fruti e que levem “nh”. Fadinhas, princesinhas, bichinhos e roupinhas. Todo o resto são coisas nas quais pensar depois ou que tal nunca. Quando o futuro mamou e está dormindo, nada mais lá atrás, lá fora ou aqui dentro tem espaço para ser.

Vou sim é contar a história de um tatu chamado Gregório que salvou os bichinhos do Pantanal durante um incêndio. Vou escrever um livro sobre uma Princesa de cabelos cacheados chamada Baunilha. “Baunilha vivia num castelo de marzipan vitoriano, na distante Ilha das Uvas Passas. Lá, ela esperava por seu grande amor, o Príncipe Cardamomo, herdeiro do trono do reino de Al Curry…” Vou desenhar o castelo de Baunilha, a toca de Gregório, os bichinhos do Pantanal e o cavalo alado de Cardamomo.

Não tão cedo se há de pensar em algo que não tenha a ver com ovelhinhas de pelúcia, móbiles com corações de tecido ou canções de ninar. Aliás, novas canções, das velhas só se emprestando a melodia! Nada de cravos brigarem com rosas, nada de  anéis que se quebram sem razão.  “Ela é tão pequenininha, tão pequeninha, brilha, brilha sem parar. Vem o cometa danado, joga o gelo do seu
rastro, faz bagunça até cansar. Nasce logo Seu Sol Forte, com seu grave dá o mote, Supernova vai solar. Entra o coral de galáxias, quatro cantos do universo, a Aninha quer mamar. Lá lá lá lá.”

Invento uma fábula com corujinhas e ornitorrincos encantados enquanto ela desenha florzinhas nas paredes da casa (papai e mamãe, isso é arte!); escrevo um conto sobre os incríveis passarinhos dourados do jardim dos Vovôs enquanto a imagino brincando de recortar (com uma tesoura sem ponta, é claro) roupinhas de bonecas feitas de papel. E seu primeiro aniversário de Branca de Neve (porque sim)? E sua fantasia de bailarina no carnaval de 2013?

Fico ali, olhando, olhando.

Ela se espreguiça, fica vermelha, boceja um bocejão muito grande para sua pequenina boca, estica a mãozinha rosada e leva os dez dedinhos com suas pequenas dez uninhas que quase parecem de mentiram até o rosto. Abre os olhos. Olhos que veem lá dentro da gente. E aí é que se diz bem baixinho, com a mais fina das vozes que se tem, “oi minha’Aninha, minha sobrinha pequenininha… 

Quer dizer que é isso, então, que é amor de titia?”

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