CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Miss Saigon

por: Cléo Araújo

19 MAR

2009

Meu objetivo: destruir Mitiko Okubara.
Meu ponto fraco: números em geral. Logaritmos, matrizes, potências e aqueles dois putos do “x” e do “y”.
Ponto fraco de Mitiko: absolutamente nenhum, exceto pelo fato de ela ser quase muda.
Meu ponto forte: falava pelos cotovelos, cantava e dançava a qualquer oportunidade de apresentação no teatro da escola. Por alguma razão, os professores gostavam de mim.
Ponto forte de Mitiko: era praticamente uma mutante, capaz de aniquilar todas as matérias com suas rajadas automáticas de notas dez.
Essa era a minha guerra particular naqueles tempos.
A primeira batalha se deu na quarta série, quando essa pessoa apareceu na minha vida para tirar meu sossego.
Mitiko sempre estava na minha frente.
Sempre.
Se eu tirasse um 9,2, lá vinha Mitiko com um 9,5 pra esfregar na minha cara (claro que ela nunca esfregou nada na minha cara. Mitiko era ponderada, sorria cobrindo os lábios e se sentava num canto sossegado da sala). Se eu tirasse dez, Mitiko dava um jeito de conseguir um dez com louvor, a ponto de professora elogiá-la em voz alta para sala toda, enaltecendo sua letra perfeita, sua prova limpa e suas respostas impecáveis. Coisas de Mitiko.
Mitiko não colava. Não conversava na aula. Não passava bilhetes. Não saía para o recreio. E tinha uma pasta de papel de carta tão impecável quanto seu cabelo liso e brilhante.
Depois de uns quatro anos perseguida por esse fantasma, eu finalmente mudei de escola.
Nunca mais vi Mitiko. Nem nos karaokês da cidade – apesar de não falar na sala de aula, Mitiko, diziam, cantava muito bem, especialmente quando mandava de “Toki no nagare ni mi wo makase”.
Nunca soube o que foi feito dela depois do primeiro colegial. Não nos encontramos prestando FUVEST. Não soube se estudou mecatrônica ou geofísica. Mas imaginei: coitada da Mitiko, nerd daquele jeito, vai ser o que nessa vida?
Eu havia sido convencida por mim mesma e pelo meu espírito pop de que aos nerds estava reservado um mundo em inércia, onde se desconsiderava algo tão importante como a força atrito para se poder continuar vivendo. Um mundo que obviamente só acontecia dentro de laboratórios, sob a lente de um microscópio e baseado em fórmulas. Eu sempre imaginei que se um dia conseguisse a proeza de escutar uma conversa de Mitiko com seus amigos ciborgues ouviria algo do tipo “xis é igual a menos bê mais ou menos raiz quadrada de bê ao quadrado menos quatro a cê sobre dois a”. Enquanto eu e minhas amigas falávamos das bundas dos meninos do segundo colegial, Mitiko frequentava aulas extras de monitoria à tarde e aprofundava seus conhecimentos acerca de PI. Pobre mulher… Bem estávamos nós, os criativos, os falantes, os das humanas, os “cidões”. Éramos nós que estudaríamos publicidade, a profissão mais tchans da década de 90.  E esse era meu caminho para o sucesso. Mitiko, pobre dela, passaria o resto da vida rodeada por ratos radioativos, bicos de bunsen, pipetas, catetos e hipotenusas.
Naquela quinta-feira, no entanto, lá estava eu, vidrada na tela da TV.
Era o último episódio da série “Cosmos”, na sua adaptação para Globo.
Sérgio Chapelin subia mais um lance da escada metafórica que levava o espectador do Globo Repórter degrau por degrau rumo ao passado da história do universo.
História, aliás, que acabava assim, sem mais nem menos, numa janela através da qual brilhava uma luz intensa, origem de tudo o que há – o absoluto desconhecido. E eu achei aquilo o máximo.
Fui ler Carl Sagan. Talvez ele explicasse melhor as coisas do que o Sérgio Chapelin.
Fui me fascinando por todas aquelas coisas que não aprendia na escola, pois Carl não falava nem de x nem de y, o que era absolutamente sensacional.
E foi assim, viajando pelos anéis de Saturno, que peguei birra de matemática. Aquela matemática da Mitiko, do PI, do Pitágoras e dos Produtos Notáveis não me ajudava a especular sobre as maravilhas do universo.
E foi assim que eu não passei na USP.
Dias atrás, enquanto me deliciava acompanhando a vida e carreira de Albert Einsten na TV em pleno sábado à noite, me peguei pensando nos nerds da década de 90.
Muita coisa mudou.
Os nerds são para o mundo hoje o que eram os publicitários naqueles tempos. Hoje ser nerd é que é pop. Aliás, hoje nem existe mais nerd. Eles adotaram o novo e nada pejorativo título de geek. E os geeks são milionários que fazem robôs e trabalham na Pixar.
Resolvi, então, procurar Mitiko no orkut.
Por onde andaria Mitiko Okubara?
Encontrei.
Mitiko, senhoras e senhores, é atriz. E, além disso, está no elenco de uma dessas montagens nacionais da Broadway. Como todo geek que se preza, Mitiko tinha uma vida secreta. E essa vida, pelo jeito, ia muito além do que poderiam dizer os polinômios.
Enquanto ela põe em prática todo seu conhecimento das exatas para cantar e dançar, eu continuo não conseguindo fazer somas sem usar os dedos. E nada me emocionou mais nos últimos dias do que a história da incansável batalha de Einsten para provar a teoria da relatividade em meio à guerra, à fome e às nuvens que teimavam em decorar o céu no dia em que ele apontava seu telescópio para um eclipse solar.
A geek, ironia da vida, sou eu.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.