CLÉU ARAÚJO
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Murfy é o caramba

por: Cléo Araújo

27 NOV

2008

Você já se deu conta de que quem sempre dá passagem para os outros é você?
Seja para aquele senhor na Brasília velha, ali na Alameda Lorena (que tentava há meses embicar na primeira pista da direita da Rebouças, sem sucesso), seja para o rapaz folgado sem uma bandeja no Viena por quilo, seja para o casalzinho de mãos dadas num elevador, seja para deixar o fulano da Freelander sair da garagem, todo mundo, simplesmente todo mundo depende de você.
Você já se deu conta de que se não fosse você, os coitados poderiam ficar esperando por toda eternidade por uma janela para embicar o carro, entrar no elevador, pegar uma bandeja ou sair da garagem?
Pois é.
Você já notou que a pessoa na sua frente da fila – seja no farol, na fila da imigração americana ou no Spoleto – além de não dar passagem para ninguém (afinal de contas, você está ali e já é sabido que se trata esta de uma missão designada a você, só você, e ninguém mais) é sempre muito, mas muito mais lerda do que você? E que decidir quais oito ingredientes devem ser a base do seu molho (esse é o sistema Spoleto de tumultuar as filas na hora do almoço) pode se revelar a escolha de Sofia do indivíduo em pé à sua frente? Alcaparra, alho poró, calabresa, milho verde, ervilha, abobrinha… Ó, quanta dúvida! E para optar entre molho branco, rosê, sugo ou bolonhesa, então? Impossível!  Mas você, ah… Você… Desde o momento em que manobrava o carro no estacionamento do shopping já sabia, exatamente, que os seus oito ingredientes seriam tomate, cebola, champignon e mussarela de búfala, tudo vezes 2 e molho ao sugo, não, sem nota fiscal paulista, sem sobremesa e sem bebida. E, assim, a pessoa atrás de você, a felizarda, não teria que ficar esperando a vez por todo sempre por causa de uma dúvida atroz entre brócolis e berinjela, Coca Light ou H2OH.
Pois é. É sempre assim.
Já pôs reparo no fato óbvio de que você é o único ser bípede do mundo que chega no horário marcado às reuniões? E que é o único ente vivo que recolhe a caca do seu totó na calçada do vizinho?
Vá, confesse.
Quando foi a última vez que você chamou os dois elevadores ao mesmo tempo? Hein? Nunca! Todo o resto do planeta chama os dois elevadores. Todo o resto do planeta – incluindo os suricatos e orangotangos safados. E eles chamariam três elevadores, se três houvesse.
E quando foi que você acidentalmente deu um “responder a todos” para um email que só interessava ao remetente principal? Nuuuuuncaaaaa. Você é a única pessoa da galáxia que você conhece que presta atenção num detalhe idiota como esse. A única que você conhece que se desgasta com pequenezas que não preocupam nem a 0,085% das pessoas ao seu redor.
E na loja de celular?
Você chega. Há, sempre, cerca de 22 a 24 pessoas com senhas na sua frente. Você entra, pega a senha – de número 078 -, senta e espera calmamente pelo sinalizador. “57, 58, 59…”. Assim vão elas, lentamente. Nenhuma, eu repito, nenhuma outra pessoa entra na loja depois de você.  A próxima só vai aparecer cerca de 42 minutos depois. E quando ela chega, a senha que lhe é dada é a 079. O número no visor? 077.
Pois é, é sempre assim com você.
É fato que até você achar uma mesa na praça de alimentação sua comida já esfriou. Mas o pior nem é isso. O pior é notar, todo santo dia, que, quando acabou de comer, milhares de mesas encontram-se vazias ao se redor, e isso somente 8 minutos após a sua busca incansável por um lugar ao sol.
Já lhe caiu a ficha que todos os namorados malas das suas pseudo-amigas acham você uma metidinha? E que todos os namorados das suas pseudo-amigas são malas? E que todas as suas amigas são pseudo?
Já se atentou para a verdade incontestável de que toda vez que você lava o carro, chove? E que você é a única pessoa que questionou a dispensa das sacolinhas de plástico no supermercado porque, oras, você teria que passar a comprar saquinhos de lixo profissionais para forrar as cestinhas dos banheiros de sua casa, redundando a produção de plástico da mesma forma como se estivesse usando sacolinhas de plástico grátis?
Se sim, se você se identifica com essas incríveis e indiscutíveis situações que minam a sua energia e se, além disso, você há pouco tempo começou a pegar uma implicância inexplicável de bunda grande, números em geral, senhas alfanuméricas, assinaturas eletrônicas, gente com falta de amor próprio, meninas que te fazem lembrar as mulheres de Manoel Carlos… Se tem vontade de comprar uma cabana no topo do Aconcágua para existir entre cachorros e lhamas e viver do extrativismo vegetal…
Não se sinta só.
Nem culpe Murfy.
Alguém concorda contigo.
E sabe que você tem é toda razão.

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