CLÉU ARAÚJO
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Nada é história

por: Cléo Araújo

24 JAN

2008

A minha chochisse se equivale à chochisse do mês de janeiro.

Não é? Um mês morno (embora muito quente)?

E é assim que eu me sinto. Uma samambaia murcha, um chá fraco, uma festa de firma de tanta animação. O mundo real é chato, eu quero ficar de férias, tomando champanhe na piscina e andando descalça pelo mundo, ah, manhêêêê, deixa, vai…

Mas isso acabou. E minha vida já voltou ao normal. E pelo jeito pretende continuar assim por um tempo (até tem o Carnaval, mas…).

Quando tudo está meio sem graça e quando seu hobby é escrever é uma lástima. Faltam os fatos motivadores das histórias. Nada rende.

Vejo-me, então, começando um texto baseada no acontecimento mais emocionante da minha semana: a história da minha ajudante doméstica, que deixou um peito de frango esturricar até a sua segunda morte em uma panela.

Ah, foi um baita de um incidente, vai?! O prédio todo ficou em polvorosa por causa de uma fumaça negra e fedorenta que saía pela minha janela feito um “dementor” (aqueles fantasminhas pretos do Harry Potter). Eu me agarro a essa história porque, putz, quase chamaram os bombeiros! E o mau cheiro de galinha queimada que desceu por todos os andares do prédio? E…

Texto de merda. Nem a comunidade das galinhas teria interesse em ler isso. Vai para o lixo! Para o bem de todos.

Aí eu me lembro do sonho dessa última noite, que foi, sim, super divertido. Claro que eu não vou fazer uma reprodução fiel do sonho no texto (não contaria nem para o meu psicanalista que sonhei estar aos beijos com um loirinho lindo que tentava me assaltar. Qual o sentido escondido disso? Eu não quero saber), mas acho tão simpática essa tocada de amor impossível, essa coisa de cinema, entre bandido e mocinha.

Começo, então, com uma frase inédita: “ontem eu tive um sonho”.

E para não concluir essa poesia com os versos “um sonho muito engraçado, eu era o garçom e você o frango assado”, deleto. Deleto tudo. Ô, combinação porreta essa de Ctrl T + Del. Você põe fim em uma coisa toda num piscar de olhos e sem deixar vestígios.

Resolvo beber, para ver se pelo menos assim um lampejo decente me faz uma visita.

A segunda taça de vinho parece surtir efeito.

A chuva que cai lá fora parece render um textinho. Quem sabe as gotinhas que descem pela janela não possam ajudar?

Corro lá, meio bebum, para o computador. “Parecem formar um “F”… Um “F” de…” “F”aça-me o favor, sua ridícula… Gotinhas de chuva psicografadas? Tome vergonha nessa cara, sua escritorinha de merda. Vá dormir que você ganha mais.

Geralmente, nos velhos tempos, era nessa hora do travesseiro que idéias boas invadiam a minha mente, outrora tão fértil, tão criativa, ô, saudade. Mas eu não consigo sentir outra coisa que não o cheiro do peito de frango que esturricou na cozinha. É, talvez devesse ter sido essa mesma a história a ser abordada. Mas com o que eu tinha digitado antes de mandar tudo pra lixeira, só chegaria a uma narrativa medíocre, digna no máximo de um 6,5 da professora de redação da quarta série do ensino fundamental.

Leitura! Nada melhor para engraxar o cérebro do que uma boa leitura. Peço socorro para todo mundo. Rubem, Clarice, Rilke, durmam comigo essa noite. Mas quem dorme sou eu, de sono de vinho, antes mesmo de me encaixar direito na cama.

Na manhã seguinte, sinto que posso estar curada. E como dificuldade pouca é bobagem, tenho essa idéia de escrever metaforicamente sobre o seguinte tema: “viver em “Oz” ou em “Kansas”?” Parece render… A mocinha do interior que veio para cidade grande e…

De novo??? De novo você vai falar sobre aquela baboseira nostálgica de: “ah, como a vida era bela lá no interior! Como São Paulo é chata, fedorenta, um estupro de cidade e blá blá blá”. De novo? Não, você não pode mais cair na tentação de falar sobre isso. Abra mão desse tema, mulher. Não importa que ninguém lê nada do que você escreve, faça algo de novo por você, para você.

Quer saber, eu não sou escritora porra nenhuma, eu não tenho fórmula, cadência, jeito, deveria estar fazendo audiências e assinando petições ao invés de ficar aqui perdendo tempo com essas bobeiras.

Estou prestes a adotar a coleção de borboletas como hobby, a entrar na aula de Chess-Boxing e a visitar a astróloga da minha amiga para saber quando é que toda essa pasmaceira criativa vai passar (se é que vai). Estou prestes a pedir de joelhos por um pé na bunda, por uma inconformidade com o status quo, por uma visita alienígena, por uma dor de corno.

Qualquer coisa que me resgate da chochisse.

E que movimente meus dedos no teclado por algo que valha a pena.

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