CLÉU ARAÚJO
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Narcisa de Araújo

por: Cléo Araújo

16 FEV

2007

O fato é que eu me acho.

Não adianta.

Nada está bom para mim. Nem ninguém está à minha altura.

Eu sou, em outras palavras, o máximo absoluto.

Você? Muito baixo. O outro ali, muito, mas muito loiro.

Aquela sobremesa? Faltava um toque de mel.

Aquele hotel na “Provence”? Toalhas duras.

Aquele em Fortaleza? Toalhas finas.

O carro? Barulhento.

Meu cabelo? Muito vermelho. Muito loiro. Muito laranja. Muito branco.

Sobrancelha: muito grossa. Tirou? Muito fina…

Aquela música? Muito alta.

Aquela intérprete? Muitos substantivos afro-indígenas onomatopaicos que nada me dizem (“zuluiê”, “maracatimba”, “pirirucu”, que raio é isso?).

Aquele amigo que você quer me apresentar? Vesgo. Ok, estrábico, vai. Criança? Nem de amigo.

Cachorro? Só se for a minha.

É, um tanto insuportável, eu sei, e talvez explique a minha situação de “ilha humana”…

Curioso é que não me acho melhor do que nada, nem ninguém. Simplesmente me acho. E ponto. Me acho sem fazer comparações com o que ou quem quer que seja. Não me acho mais inteligente do que, mais bonita do que, mais descolada do que… Nada disso. Só me julgo, me basto, me sinto. Assim, sem parâmetros estabelecidos para checagem.

O jeito que eu faço é sempre o melhor, afinal, como é que alguém pode comprar detergente de maçã? Ou desinfetante de laranja (para ficar com aquela água amarela dentro do vaso sanitário… Parece tudo, menos desinfetante de laranja)? Ou um livro cujo título é “Não faça tempestade no copo d’água do monge executivo que mexeu no meu queijo”?

O meu posto de gasolina é o mais garantido.

A cidade onde vivo a mais perfeita para se morar. Como é que alguém consegue morar em outro lugar que não aqui?

O meu banco é o mais seguro…

O meu salão de beleza, o melhor custo-benefício. Como é que alguém consegue passar a vida sem limpeza de pele?

Medo de cachorro (a menos que se trate de um pitbull espumante) é algo além do compreensível para minha mente petulante. Porque eu não tenho medo e eu sou o centro do planeta.

Eu me acho tanto, mas tanto, que viajar, por exemplo, é muito difícil.

Primeiro, é complicado para escolher o destino: Brasil? Muito caro. Caribe? Furacão. Europa? Blasé. Estados Unidos? Eu não me submeto a ficar em fila para tirar visto.

Aí, a segunda parte – a companhia para viagem: “x” é muito pacata, “y” muito agitada”, “z” muito histérica, “alfa” muito depressiva, “beta” ranzinza, “gama” não bebe… Vou sozinha. Boa, sou eu.

Como alguém consegue viver sem MSN?

Como, como pode alguém acordar às seis horas da manhã para correr? Na chuva?

É possível mesmo que alguém dance em público um passinho ridículo e fique bem com isso? Porque eu, ah… Eu só danço se for para mandar logo uma de Shakira! O que significa que eu só danço bêbada e iludida, mas me achando. Ou não danço. E ponto.

Eu sei que vou me achar cada vez mais, tudo vai ser cada vez mais insuficiente para mim e meu padrão de exigência sobre-humano.

Eu não percebo uma tendência de retrocesso nos meus genes megalomaníacos, no meu ego de princesa, na minha alma narcisa. Não. Eu sou demais mesmo. Para sempre, o máximo.

Eu vou me bastar cada vez mais, até achar que a única coisa que é demais para mim, pasmem, sou eu mesma. E aí, vou querer melhorar.

A verdade é que eu me acho tanto, mas tanto, que me perco.

Me acho tanto que não consigo conceber a possibilidade de que possa existir por aí gente que acha o meu estilo de vida torto. Estranho. Inconcebível. Repugnante…

“Como pode ficar assim, sozinha? Como pode não ter um acompanhante nos casamentos das amigas? Como pode não ter carro automático? Como pode viver com um cachorro naquele apartamento? Como??? Como pode usar um cabelo daquele tamanho? Ela não tem 16 anos! Como pode odiar academia daquele tanto? Como pode não querer perder aquela barriguinha nojenta? Como pode usar aquela sobrancelha peluda? Como pode tomar sorvete do Mc Donalds todo dia depois do almoço? Como pode??? Pobre moça, essa tal de Cléo. E o pior é que ainda se acha!”.

Paro em frente a um desses programas do National Geographic Channel sobre astronomia – porque novela, filme comercial, programa de auditório e Big Brother são MUITO pouco para minha inteligência albertiana supermega exigente. Estão contando essa história do universo em expansão. Expansão que, um dia, vai fazer o movimento contrário, retrocedendo. E aí, meu amigo, tudo vai explodir, sucumbindo à densidade da sua própria matéria. Será só o nada.

Bom, se o universo, que é infinito, vai minguar à sua própria magnitude (mesmo que seja daqui a um quinquilhão de anos) pode ser que eu fique humilde, um dia.

Porque por enquanto, e enquanto o universo continuar sendo infinito, a única parte da suposição da pessoa que despreza meu estilo de vida com a qual eu concordo é aquela última: “o pior é que ainda se acha!”

E se um dia alguém, um rapazote, digamos, atender, é claro, a toda essa exigência de mulher narcisa, concordar comigo (me achar o máximo) e quiser me amar tanto quanto eu me amo, ah, nesse dia, o universo pode até ficar denso e pequeno… Quem sabe aí, nesse fim dos tempos, o meu ego acompanhe o movimento e lá, em outra dimensão, deixe de ser essa coisa volátil e gigantesca. Esse Júpiter dos egos.

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