CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

O amor e o ódio pelos dias especiais

por: Cléo Araújo

15 DEZ

2005

Datas comemorativas nunca foram o meu forte. Aniversário (o meu), dia dos namorados, Natal, terça-feira de Carnaval, Páscoa, Reveillon. Não consigo relaxar, curtir. Claro que feriados são bem-vindos, esperadíssimos, mas geralmente prefiro aqueles neutros, tipo Tiradentes. É como se, em datas especiais, a chance dos planos não darem certo ficasse maior do que num outro dia qualquer do calendário. Para viajar é ruim porque as estradas estão lotadas e porque as passagens aéreas ficam mais caras; para ficar em casa é pior, porque as ruas ficam desertas e a gente deprime quando se dá conta de que todo mundo foi para praia ou para o interior. Menos você. Em outras palavras: ou fica tudo extremamente confuso ou demasiadamente melancólico. Pelo menos bem mais do que em qualquer outro dia comum do ano. Ou não?

O “dia especial” causa no ser humano médio (aquele que precisa de dias especiais para ter folga no trabalho, por exemplo) muita expectativa. Ele se esquece de que, apesar de se tratar de uma data especial, o mundo continua a girar, o céu continua a chover, as pessoas continuam a pegar resfriados, a xingar o motorista do lado e a achar bichinhos na salada. E nos dias especiais esses acontecimentos ganham peso maior. Não é que eu não goste de comemorar. Eu gosto. Adoro ir a festas, celebrar, abraçar os meus entes amados, dar-lhes presentes, estar junto deles e construir momentos felizes. Adoro casamentos, nunca deixo meu aniversário passar em branco, mas… Continuo achando que as datas especiais me deixam um pouco desconfortável, nervosa, apreensiva, ansiosa.

É como se nesses dias tudo tivesse que acontecer de forma orquestrada. O seu aniversário, por exemplo, é feriado nacional? Bom, a menos que role uma coincidência, geralmente, não. O seu aniversário é um dia qualquer. Um 15 de março, um 22 de agosto, um 25 de outubro. O que significa que, quando ele cai numa segunda-feira, a sua rotina é exatamente a mesma de qualquer outra segunda-feira do ano. Mas não. No dia do nosso aniversário, salvo raríssimas exceções, ou a gente se obriga a fazer dele um “dia especial” ou a fingir que não acha que ele é um “dia especial”. E é aí que a coisa se complica porque ambas as situações são estressantes.

Mas nenhum stress do ano se compara a esse, vivido nas adjacências da época de Natal. Fica todo mundo meio histérico. Ao invés de pairar no ar o espírito natalino, de solidariedade, de amor e paz entre os homens, paira o estado que-ódio-roubaram-a-minha-vaga-no-estacionamento-lotado-do-shopping. O trânsito fica odioso. É todo mundo comprando de tudo ao mesmo tempo agora. E chove. E o seu celular pifa. E você resolve que precisa de um novo. E as filas das lojas de celular podem ser vistas da Lua, elas são a Muralha da China das filas. Seu carro vai para o mecânico. Seu décimo terceiro não deu para nada porque você se contradisse e acabou comprando presentinho até para a afilhada do irmão do seu cunhado. As musiquinhas natalinas não saem da sua cabeça. Crianças invadem territórios outrora tranqüilos, como restaurantes nos quais você almoça, porque elas estão de férias. E você não. Em suma, você tem vontade de estar no topo do Everest, sozinho, acompanhado no máximo de uma rena e de um trenó, que possam lhe ajudar a descer de lá no dia 26 de dezembro.

Finalmente, quando você consegue chegar vivo e medianamente bem humorado à meia-noite do dia 24 de dezembro, um momento de pleno prazer: todas aquelas comidinhas deliciosas – dezenove tipos de frutas, incluindo algumas exóticas, seis categorias de carnes (aves, bovinos, caprinos, suínos, marinhos), doze tipos de arroz. Uma celebrada orgia gastronômica que dura aproximadamente 13 minutos. Sim, em 13 minutos está finalizado um momento que levou 72 horas para ser preparado. E aí começa o samba do Noel na porta da geladeira! Sai o peru entra a leitoa, sai o tender entra o chester , sai o camarão na moranga entra o lombo. Não cabe mais nada, NADA, e ainda tem um pobre alguém que fica encarregado de encaixar um pedaço de melancia lá dentro.

Uma semana se passa e é hora de mais um dia especial: 31 de dezembro. Reveillon. Você pode ser daqueles que optam por viajar, ir pra longe para não ter que repetir a maratona do Natal, fazer uma coisa só você, sem compromisso com a família. Mas não se engane: o stress da data especial continua. Lá vai você curtir a passagem do ano na beira da praia, pular ondinha e tal. E aí começa o samba da lentilha! O trânsito na serra é simplesmente astronômico, de uma abundância nunca vista. O pedágio custa um trololó e meio de reais e você fica enfurecido por ter que ficar parado por mais de duas horas numa fila (também daquelas visíveis da Lua) a fim de cruzá-lo e ainda ter que pagar uma fortuna por isso. A chuva começa. E não para nunca mais. Nunca mais! Você não consegue estourar o champanhe na praia porque chovem canivetes, sapos, taturanas e lacraias pontualmente à zero hora do dia 01 de janeiro. Sua super noite de Reveillon termina. Você está tomando champanhe quente (geladeira de praia nunca funciona) num copo de requeijão com restos do rótulo, jogando tranca e torcendo para pelo menos abrir sol no dia seguinte para você poder voltar para o escritório com uma cútis um pouquinho mais corada.

Mas ta, vai. Confesso que essa é sim uma ode mal-humorada. O fato é que eu estou contando os dias para o break de final de ano. E verdade seja dita: há sim o lado bom sobre esses dias especiais. Sobretudo esses, do final do ano.

Essa é a hora da parada, do relax . As festas de final de ano vêm na hora certa porque nessa hora o que está no fim, na real, não é só o ano, mas todas as suas pilhas. E tudo que a gente quer é uma chuva na praia, um champanhe morno num copo de requeijão e uma nuvem de borrachudos picando a gente. E esses serão os maiores problemas com os quais a gente vai ter que lidar, pelo menos até o dia 2 de janeiro. Que vai cair sim numa segunda-feira qualquer. Aquela que antecede todas as demais segundas-feiras do ano. Sejam elas especiais ou não.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.