CLÉU ARAÚJO
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O amor tira férias

por: Cléo Araújo

13 MAI

2008

Muito cinema faz mal.

Causa essa tendência na gente – que é gente comum – de ficar comparando a vida real com a vida do Tom Hanks com a Meg Ryan, do Ashton Cutcher com a Amanda Peet, do Mark Ruffalo com a Jennifer Aniston.

Muito cinema faz mal porque a vida não é assim, não.

Rapazes que você conhece em chats na internet não são milionários que estão com dor de consciência por terem te levado à falência (até porque você também não é dona de uma charmosa loja de livros infantis em Nova York); reencontros aleatórios com aquela bimbada casual no avião não acontecem, tão, assim, por acaso (bimbadas casuais no avião, por acaso, acontecem, tão, assim, por acaso?); traições deslavadas não vêm seguidas de pedidos de casamento do corninho em questão. Não, não é assim, não.

Não é que eu reclame, sabe? Não mesmo, não reclamo das aventuras amorosas com que a vida (real) me presenteou. Se eu reclamasse ainda correria o risco de ouvir você dizer que reclamo de barriga cheia. E por um momento até eu concordaria. Mas aí seria só eu pensar na Reese Whiterspoon com o Josh Lucas que rapidamente voltaria a ter certeza de que posso reclamar sim, com licença.

Claro que preferiria ter em minha memória uma despedida cinematográfica na estação de trem em Viena a um fim de relacionamento recheado por uma conversa chocha (um monólogo meu, para ser sincera) no sofá de casa. Claro que gostaria de ganhar um beijo de um cara com a cara do Michael Vartan no meio de um jogo de beisebol (ou de basquete, de vôlei, de truco, enfim), ou você acha que eu nunca quis um Nicholas Cage correndo atrás de mim no salão do aeroporto para impedir que eu me mudasse de mala e cuia para Paris? Acredita mesmo que eu não trocaria um telefonema normal, feito por um paquera normal me convidando para um cinema normal por uma serenata anos 90 na soleira da minha porta – “I’ll live and I’ll die for you …”. É evidente que adoraria trair meu noivo com alguém com a cara do Kevin Costner. É evidente que adoraria ser noiva do Rufallo, mesmo que fosse só para colocar um par de chifres em sua cabeça e depois me arrepender até a morte – ou até o fim do filme.

Sim, eu adoraria, não fossem os fatos insuportavelmente verdadeiros que fazem de mim e dos outros ao me redor pessoas reais.

Confesso que às vezes me dá uma coisa de heroína de cinema. E aí eu vou para luta numa tocada Beatrix Kiddo.

Mas, ao invés de uma comédia, acaba que eu vivo um drama. Meio que de improviso, me vejo abrindo mão de amigos, programas, cachorros, familiares, quilos, tudo, tudo em nome de uma mera possibilidade de amor.

Esses furos no roteiro me incomodam porque o objeto do amor em questão costuma ser assim, bem menos promissor do que um Hugh Grant, maldito estereótipo incrustado em meu subconsciente. No fundo, no fundo, é ele que eu quero.

Mas, a vida é a vida. E nela, para ser romântica, honesta e contraditoriamente falando, eu acho melhor não amar ninguém. Para dar vazão ao romantismo acumulado durante anos de cinema, o melhor é escrever um roteiro.

E esperar.

Porque o amor, ao contrário do que dizem por aí, parece que tira férias, sim senhor.

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