CLÉU ARAÚJO
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O anti-primeiro de abril

por: Cléo Araújo

01 ABR

2005

Eu não quero contar mentira pra ninguém no dia primeiro de abril. Eu já cansei das minhas próprias mentiras, aquelas que eu invento pra mim mesma. Em qualquer dia do ano, não preciso esperar o primeiro dia de abril pra mentir pra mim mesma. Até porque eu caio na minha mentira, independentemente do dia em que eu a conte. Mas quero exorcizar as minhas mentiras hoje, quero fazer desse um anti-primeiro de abril, um dia de falar verdades, que de tão esquecidas que estavam, chocam mais do que as mentiras.

Eu vivo mentindo pra mim que vou andar pelo menos 30 minutos por dia, todo dia. Mas sempre fico ou com preguiça de acordar mais cedo para isso ou com preguiça de adiar meu banho da noite, quando chego do trabalho. Então, chega de mentir: eu não vou andar 30 minutos por dia. Eu vou andar no máximo 30 minutos a cada 15 dias. Essa é a verdade. Nua e crua.

Chega de inventar mentira para não ir a um programa: “minha tia está em casa”, “estou com dor de barriga”, “tenho que trabalhar à noite”, “já combinei outra coisa hoje”, “minha tartaruga está com febre”. Chega! Quero dizer “não estou a fim, estou deprê, sua companhia não iria me agradar hoje, muito menos a minha agradaria você, vá sozinho que é melhor”.

Não vou mais ficar insistindo nessa papagaiada de que vou parar de comer doce. É mentira, mentira braba. Eu não resisto a um doce de leite pastoso com um queijo minas. Então, chega! É mentira, eu vou continuar comendo doce, sempre.

E essa bobeira de ficar mentindo pra mim sobre controlar os gastos no cartão de crédito? Mentira, das pesadas! Quem vai pagar uma conta à vista podendo dividir, pelo mesmo preço, em cinco vezes no cartão? O sistema me obriga a mentir. Eu vou continuar gastando no cartão, pelo menos enquanto os produtos que eu compro continuarem não tendo desconto à vista.

Existe um zilhão de pesquisas mostrando o tanto de mentiras que um ser humano médio é capaz de contar no ínfimo espaço de tempo de 12 horas. E sendo assim, que graça tem um dia todo dedicado a pregar pecinhas nos outros? A gente deveria instituir o dia da verdade. Você poderia chegar pra alguém hoje e contar uma verdade cabeluda. Garanto que o susto seria bem maior.

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