CLÉU ARAÚJO
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O caçador de crocodilos e a astronauta

por: Cléo Araújo

05 ABR

2006

“Oi, tudo bem?”
“Tudo, tudo sim… A gente se conhece?”
“Não, acho que não, pelo menos não por enquanto. Na verdade, estava olhando para você dali do balcão do bar e não me contive, tive que vir até aqui, perguntar seu nome e te oferecer uma bebida.”
“Meu nome? É Gilberta. E o seu?”
“Patrício.”
“Então, Patrício, o que você faz?”
“Sou caçador de crocodilos. E você?”
“Sou astronauta.”

Um diálogo, no mínimo, infreqüente. Mas não culpem a falta de oportunidades! É só pensar nos inúmeros encontros casuais que uma noite qualquer em um bar pode oferecer. Ou pense então nos incontáveis papos puxados pelo passageiro que se senta ao seu lado no avião, no metrô, no ônibus ou até na sala de espera do médico. São tantos…

O ensejo da conversa pode se dar por pura paquera mesmo. Mas, outras vezes, pode começar porque o silêncio, convenhamos, às vezes incomoda bastante. Pode começar, ainda, por excesso de simpatia de uma das partes, ou até de ambas. Geralmente, e diferentemente do que nos traz o diálogo no topo do texto, o nome nem é a primeira coisa que se pergunta. No caso da paquera, a primeira investida, na maioria das vezes, é uma piadinha infame e nervosa que nasce sim com o objetivo de quebrar o gelo, mas cujo destino oscila entre afugentar completamente o alvo e uma promissora risadinha. Mas invariavelmente a pergunta do ofício do outro a gente sempre faz. Sem-pre!

O fato é: a indagação “O que você vai ser quando crescer?” é uma das mais intrigantes questões da nossa existência. Essa pergunta, quando inicialmente introduzida à vida de um fedelhinho ou pimpolhinha de dez anos, desperta viagens altamente criativas. Mas isso tudo vai perdendo a importância quando o fedelhinho acaba por descobrir que algumas coisas que se são quando se cresce só existem mesmo nos filmes que ele assistiu. Ele descobre que ele não vai poder ser o Shrek , por exemplo. A pimpolha percebe que não vai dar para ela ser uma Tomb Raider . Sem contar as idéias que são podadas pelas mães já na sua origem, aquelas que supostamente nos fariam morrer de fome.

Eu já conheci muito publicitário, empresário, advogado, médico, produtor, programador, fisioterapeuta. Coisas, enfim, básicas. Coisas que constam do manual da FUVEST. Gente como a gente, que vai lá, escolhe a profissão, estuda (ou não) e fica com uma resposta prática para oferecer às pessoas quando inquirido a respeito da sua labuta.

Mas… E um árbitro de futebol, por exemplo? Nunca veio puxar papo comigo. Ou algo do tipo “Oi, tudo bem? Eu? Sou arqueólogo.” Nunca, embora eu tenha, por muitos e muitos anos, tido a certeza de que me casaria com um. Mas essa era uma daquelas profissões que me deixariam numa vida adulta de mínguas, diziam.

Também não é comum conhecer um Secretário Executivo. Um , eu quero dizer, não uma . Tipo “Eu sou secretário do Presidente da Empresa X.” Da mesma forma como é incomum trocar idéia com um Deputado Federal num bar qualquer da vida. “Sou deputado, eleito pelo Rio de Janeiro. E você?”

Nunca conheci um meteorologista “eu comecei com garoas e trovoadas esparsas, mas hoje trabalho no setor de tufões”. Não encontrei por acaso com um adestrador de cachorros – “adoro trabalhar com os malteses, mas os border-collies dão muito trabalho”. Nem com um cartunista, um maestro, um capitão de transatlântico, um perfumista, um sismólogo, um detetive, um coreógrafo ou um guarda florestal.

Imagino que eu também não cause muito frisson ao contar o que eu faço da minha vida. E já começo a pensar em fazer alguns testes a fim de avaliar reações alheias ao me declarar “astróloga” ou “criadora de bicho da seda”.

A gente cansa de conhecer só os engenheiros, advogados e atendimentos de agência. Todo mundo legal, todo mundo com algo a agregar, é claro, mas o que sinto é que estou perdendo um mundo todo de pessoas com profissões divertidas e inéditas. Eles estão escondidos em algum lugar, em algum boteco, em alguma sala de espera misteriosa. Eu tenho certeza que isso é o que acontece, por exemplo, com os pilotos e co-pilotos de avião. Nunca, jamais cruzei com um, a não ser que conte aquele “bom dia” na portinha do avião. A minha teoria é que todos os pilotos, comissárias e operadores das torres de aeroportos saem em lugares secretos, que só eles conhecem. O que é uma pena, porque eu adoraria passar uma noite toda de papo com o piloto de um Air Bus 320. Por paquera, por incômodo do silêncio ou por puro excesso de simpatia reprimida mesmo.

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