CLÉU ARAÚJO
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O coiso

por: Cléo Araújo

05 NOV

2010

Para mãe do Edu, era “o coiso”. “Comprei um coiso de papel”. “Cadê o coiso da TV?”. “Comprou o coiso do churrasco?”. Para que grampeador, controle remoto, sal grosso (ou seria carvão?) se ela tinha ele, o coiso? O coiso da mãe do Edu era bastante útil e extremamente versátil. Um rebatismo geral e abrangente para coisos inanimados da cozinha à garagem, das viagens espaciais às gráficas rotativas, dos cardápios de restaurante às oficinas mecânicas.

Pois inventar nomes subjetivos e intraduzíveis para as trivialidades da vida não é privilégio da mãe do Edu. Todos temos nossos coisos. Em casa, no trabalho, no porta luvas do carro, nas pastas do Windows Explorer e na agenda do celular.

Às vezes, coisos podem ser regionais, conhecidos e utilizados apenas em determinada área geográfica. Cacetinhos e carreteiros, sacolés e médias, sinaleiros e capotes que só conhece quem os come, chupa, enxerga e veste. Aqui, na minha cidade, por exemplo, a gente tem o “bigato”. O bigato é o sem graça e literal “bicho de goiaba” dos estrangeiros. Um bigato é muito mais significativo e visual do que um bicho de goiaba. O bigato é viscoso, nojento, repulsivo. O bicho de goiaba é só um bicho de goiaba, diz tão pouco de si.

Mas o dialeto fenômeno do coiso acomete células sociais mais restritas do que cidades inteiras. Recai, muito frequentemente, sobre o linguajar de famílias ou grupos sociais reduzidos. Coisas que se você pronunciar fora da sua rodinha não significarão absolutamente nada. Lá em casa a gente tinha o cuticulico. Foi só há pouco tempo que passei a chamar o substantivo composto “alicate de unha” de alicate de unha. Cuticulico, simples, direto, coiso. Tinha também o bendjô. Fazer xixi? No bendjô. Tomar um banho? No bendjô. Era fofo, levemente japonês.

Há também quem coise pessoas e nomes próprios.  Quer tarefa mais difícil do que localizar um contato por ordem alfabética no celular? Patrícia Melo, Ricardo Santos, Guilherme Moraes? Quimera. Patrícia é dona de uma Pet Shop, então, se quiser localizá-la, precisa se lembrar de que ela foi rebatizada de “Banho Rex, Pat”. Ricardo, que é amigo do Lu da pizzaria, é o “Amigo do Lu da Pizzaria”. Guilherme, que sempre quer cantar Fábio Júnior no Karaokê, é “Guilhermino Guinle”. Coisos humanos traduzidos pelo coisômetro pessoal de cada um.

Há eras, indivíduos criativos e orgulhosos rebatizam partes do corpo como se bichinhos de estimação fossem. Lembram do Bráulio? Rebatismo clássico, deu tão certo que é quase sinônimo. E as crianças? Ases na arte de rebatizar. O travesseiro da Carol era a donininha. A boinha de piscina da Júlia, tipolins. Mas não é só criança que entra nessa. O Ford Ka da Eli: Penélope. O secador de cabelos da Isa: Chicão. A mala de viagem do Rafa: Nikita.

Coisos, bigatos, guilherminos e tipolins. Recriação da língua, poesia vocabular. Fico aqui, curiosa, pensando em quantos coisos eu nunca vi. Escreva contando o seu. Meu nome é Cléo. Lá em casa, atendo por Maricleide. Precisa explicar?

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