CLÉU ARAÚJO
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O dia em que virei uma pessoa “M”

por: Cléo Araújo

15 JUN

2005

Eu sempre entrei em calças tamanho 36. Sempre vesti blusinhas P (às vezes até PP). Casacos tamanho M sempre foram capazes de acomodar duas de mim.

Sempre tive que me preocupar em checar as araras das lojas exaustivamente, até chegar naquela malha cujas mangas não cobrissem as minhas mãos por completo. Sempre foi difícil achar jaquetas e blazers que ficassem verdadeiramente acinturados sobre o meu corpo. Tudo era grande, tudo tinha que ser extra P. Criança, às vezes, usava a calça de algodão do pijama para preencher a calça de helanca azul marinho do uniforme do colégio das irmãs. Mas, tudo isso acabou.

Coisas P não me servem mais. Calças 36 não abotoam mais. Casacos P, quando abotoados, parecem poder causar uma explosão descontrolada de botões que não conseguem mais se segurar dentro de suas casas apertadas.

Eu não sou mais uma pessoa P. E, o que é mais curioso e intrigante: o peso é o mesmo. Não me sinto gorda. E não, esse não é um texto tepeemítico sobre o triste ganho de alguns quilinhos, não é sobre a briga com a balança, pelo menos não dessa vez. É apenas uma constatação. Virei, do dia pra noite, uma pessoa M.

Talvez seja o retorno de saturno, me deixando mais próxima dos 30 e mais distante desse mundo P, que está ficando lá para trás.

É como seu eu tivesse, finalmente, saído da puberdade. Não sou mais a pré-adolescente das roupinhas em miniatura. Para mim, virar M está sendo uma grande conquista, uma conquista da mulher mignonMignon. Mulher. O mundo. É, acho que virei mesmo uma pessoa M. Assim, de 28 anos e com M maiúsculo.

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