CLÉU ARAÚJO
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O elfo, o escocês e o guerrilheiro

por: Cléo Araújo

31 MAI

2005

Será que há algo de errado em idealizar, imaginar, fazer fotografias mentais do homem dos nossos sonhos? Graças a uma auto-análise e a uma reflexão objetiva sobre esse assunto, cheguei à conclusão de que isso diverte e rende noites bem dormidas. Talvez seja um hábito inerente a mulheres que já conquistaram alguma independência em suas vidas, seja ela financeira, emocional ou profissional. São todas seres habitantes de uma cidade como São Paulo, todas meio que vivendo em função do trabalho. Mas, acima de tudo e principalmente, mulheres que vêm colecionando, sem orgulho algum, “casos-furada” ao longo de suas carreiras enquanto namoradas, rolos, noivas, aspirantes a noivas e até esposas em algumas situações mais extremadas! Ou seja: antes o homem dos sonhos do que o pesadelo da realidade.

Este é o perfil da sonhadora. Tantas foram as canseiras e as derrapadas com homens que ela não tem mais paciência para encarar a simples possibilidade de uma furada ‘reloaded’. A hipótese de entrar em uma dessas cansa e dá até enjôo. Então, nos fechamos em nossos casulos, curtindo nossas viagens e encontros com o cara-perfeito-que-não-existe-no-mundo-real. E que fique claro: não estamos falando aqui de paixões platônicas, aquelas da adolescência, quando namorávamos o Harrison Ford, os integrantes do New Kids on the Block ou o carinha do filme “A Lagoa Azul”. Trata-se da construção de um novo estereótipo, que derruba o príncipe de cima de seu cavalo branco. O tipo masculino que reúne e sublima todas as fantasias e utopias das mulheres. Príncipe encantado? Quem iria ficar idealizando um chato desses, fresco e ultrapassado? Ninguém! Por isso ele, o novo estereótipo modelo Século XXI: o Elfo Escocês Guerrilheiro.

Esse é o que há de mais novo em termos de estereótipo. Esse resume a sublimação das características que o homem dos sonhos deve ter. Elfo, a sua tribo; Escocês, a sua nacionalidade; e Guerrilheiro, a sua profissão.

Você está lá, curtindo sua viagem. Ora você se vê cavalgando sobre campos que saíram de dentro do livro de Tolkien, ao lado de seu Elfo, que comanda os galopes do cavalo. Lá está ele, loiro, misterioso, frágil, porém corajoso, forte, delicado, protegendo-a, carregando-a, fazendo-a sentir como uma fada, um ser imortal. Segundos depois e você salta diretamente dos campos de Tolkien para uma casinha de pedras em Glasgow, com uma lareira charmosa, iluminação de velas, som de gaita escocesa. Um copo de scotch e o seu escocês: ele tem o look Ewan McGregor em ‘Moulain Rouge’. Másculo, porém romântico, apaixonado, gentil e divertido. O sonho começa a mudar… Sai a neve, entra uma densa floresta tropical. Você viaja para terras equatoriais e se vê em meio a essa floresta, navegando em uma pequena canoa por rios amazônicos. Ao seu lado o seu Guerrilheiro, um Che Guevara do século XXI, charmoso, forte, idealista, alguém que morreria por você se fosse essa sua grande causa. Moreno, cabelos castanhos cacheados, calado, porém de olhos doces. Um sonhador, alguém que quer fazer do mundo um lugar melhor. E você baba, baba nos três, sonha toda noite que um deles vai abrir a porta do seu quarto e te levar para o seu habitat. E você nunca, nunca mais vai voltar pra vida real.

E então você se vê de repente em queda livre, num precipício sem fundo, quando se dá conta de uma verdade dolorida e até cruel: você está se escondendo nesses sonhos! Você sente pavor da remota possibilidade de que sim, você pode vir a encontrar alguém na vida real. E você não quer alguém! Você quer ninguém, aliás! Alguém pode significar uma nova furada e muito, muito tempo perdido. Um elfo com seu arco e flecha, um escocês de saias e um guerrilheiro do bem jamais fariam isso com você! Jamais! Você conhece os rapazes há muito tempo.

É isso: você percebe, ao detectar que sofre dessa síndrome, que a tal foto mental é um belo esconderijo para você não ser surpreendida pela chance de encontrar alguém que não se pareça com a sua foto. E não que você seja só ligada em visual, mas é que a foto mental tem a capacidade de revelar não só a aparência, mas os gostos, o humor, o cheiro, o temperamento, o timbre de voz e tantas outras coisas tão importantes para que se configure o desenho do cara dos sonhos.

Essa síndrome vai se mostrando aos poucos. No início, enquanto ela ainda não se alastrou pelo seu organismo, comprometendo todas as suas células sadias, você é uma garota como todas as outras que estão sozinhas há um certo tempo. Fica de saco cheio, se acha injustiçada e deprimida por estar sempre na mesma. Você nem sequer se lembra da última vez em que raciocinou: comprar um vinho = criar um ambiente romântico para o cara que valia MUITO a pena. Você pensa que morre de saudades de estar com aquela pessoa que lhe dá frio na barriga. Pensa que sente falta de comprar camisolas lindas, românticas, cheia de rendas, simplesmente porque a única pessoa que vê sua camisola ultimamente é seu cachorro. Ele não liga a mínima pra renda. Isso quando você dorme de camisola, porque geralmente a roupa de dormir é aquela camiseta que você comprou há dez anos no Epcot Center, no pavilhão dos Estados Unidos, descorada, com a gola esgarçada e com um furo debaixo do braço.

Aí a síndrome começa a se manifestar: “mas e se não?”. E se você só estiver mentindo pra si mesma, se enganando? E se você , na verdade, não quiser ninguém coisíssima nenhuma?! E se você percebe que AMA sua camiseta do Epcot e que adora dividir um vinho com seus amigos? E aí, o golpe de misericórdia, o diagnóstico final: você encontra alguém e, quando a coisa aparece, ali, na sua frente, você foge que nem o diabo da cruz! É isso, amiga, você está acometida pela síndrome do “elfo escocês guerrilheiro”! Você se transforma na musa inspiradora do bordão “antes só de que mal acompanhada”.

Eu conheço a síndrome. E me pergunto: quais serão as suas causas? Terá ela cura? Quererão aquelas que são acometidas por ela ser curadas? Será que nós, mulheres, não conseguimos ver o elfo dentro de cada menino que se aproxima de nós? Ou será que é porque de fato falta um pouco de guerrilheiro nos homens que estão por aí? Será que os homens estão mesmo virando uns chatos de galocha, vazios, ou somos nós quem não estamos enxergando além do que nossos olhos e nosso coração podem ver? Ou será que as chatas somos nós, individualistas, egoístas? Nos trancafiamos em nossas torres urbanas e não colocamos a cara na rua. Nossa vida social sofre uma modificação porque, já que você sabe que não vai encontrar o elfo na balada, por que raios você vai para balada? E aí você vai se fechando, se fechando, se fechando… e ficando sem respostas para todas essas perguntas.

Certamente não há muitos elfos, escoceses ou guerrilheiros disponíveis por aí, a fim e a postos para concretizar todas as nossas sandices. Mas, enquanto essa síndrome não estiver causando grandes males, como uma misantropia crônica ou a hipótese da clausura eterna, talvez seja melhor ficar com ela a arranjar discussões com a nossa auto-estima. A minha grita comigo o tempo todo para que eu fique quieta, esperando sempre o melhor. “É só o melhor que interessa, depois de tanto bate-cabeça”, a auto-estima diz. “Você merece um elfo!”, ela se derrama, escandalosa.

E, sinceramente, se há alguém que não se deve irritar nessa vida é ela, a nossa auto-estima. E que venha o elfo! Desse, com certeza, ninguém vai ter coragem nem vontade de fugir!

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