CLÉU ARAÚJO
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O timing perfeito

por: Cléo Araújo

25 AGO

2006

Chega um momento na vida de uma moçoila solteira em que todos seus convivas se sentem imbuídos da missão de lhe ajudar a encontrar um parceiro. Ela simplesmente parece não ter traquejo nem sorte quando faz isso por conta própria. Depois isso passa, é verdade, até porque os convivas, em geral, desistem da intentada ao perceberem que a moçoila é meio complexa, exigente além da conta e tem uns gostos bastante específicos e rígidos, do tipo, só se atrai por homens de cílios longos e odeia cheiro de jornal no quarto.

Mas enquanto todos os seres circundantes estão encarregados dessa missão, a moçoila praticamente não tem trégua. Sua avó tem uma amiga parceira de Bingo que tem um neto “menino bom”, que ela adoraria lhe apresentar. Sua tia conheceu o filho de uma amiga da esposa do sócio do seu marido, que é uma graça, gerente de marketing de uma multinacional, passa dois meses do ano em Madri, perfeito o rapaz. Sem contar os amigos do marido da melhor amiga, escalados por esta sempre que possível – o que significa sempre que um deles está naquele homeopático período entre-relacionamentos.

A coisa sempre começa com o “acaso”: aquele churrasco de sábado, aquele vinhozinho de quarta, aquele happy hour de terça, aquela descida para praia de sexta e aquela naturalidade… “de quinta”, convenhamos. Todas, mas todas elas, ocasiões descaradamente cavadas para proporcionar o confronto que, na cabeça de alguns poucos românticos, podem sim ocorrer de forma quase macia, espontânea.

E lá vai a moçoila, no fundo, só para não fazer desfeita com a amiga, a mãe ou a dog-walker da sua cadelinha, que também tem um amigo dono de um canil de Rotweiller que é uma graça. Ela vai, coitada, até bem humorada, ouvindo seu CD da Amelie Poulain, ao encontro do “calouro”, pobre homem que, maior parte das vezes, sequer sabe que está atuando feito cobaia aos olhos da púbere balzaca e de seus maquiavélicos mosqueteiros.

Na maioria das vezes, dá tudo errado. Um dedão, por exemplo, um aparentemente inofensivo dedão, pode colocar todo um cenário delicadamente construído em ruínas.

A moçoila, já acessando uma área geográfica comum a ela e ao candidato número 1 (que, ingênuo, nem sabe que é o candidato número 1 e que, até por isso, está sujeito a um deslize do porte deste que segue narrado) chega sem alarde e tenta fazer de conta que tudo aquilo é tão natural quanto água de coco orgânica. O candidato 1 (atuando da mesma forma, quiçá?) segue livre, leve e solto… Mas tão livre, tão leve e tão solto que, naquele dia, resolveu calçar seu Rider. E é aí que tudo acontece: entre a tira grossa e a sola do chinelo, ele jaz: o pobre do dedão, com um chumacinho de pelos descobertos e desprovidos de timidez, que afugentam a moçoila e maculam qualquer possibilidade remota de relacionamento, presente, futuro ou em outra vida. E fim.

“Nada contra um dedão, ou até “o” dedão” – a moçoila se defende. Desde que ele não seja, por favor, a primeira coisa aonde ela venha acidentalmente a deitar seus olhos, o que pode causar petrificação instantânea, tal e qual um “esguardo” direto a Medusa. A moçoila acredita que há uma hora certa na vida até para um dedão ser revelado. Duas pessoas e seus quatro dedões devem estabelecer limites até que cheguem, juntos, à hora das apresentações formais de seus pododáctilos, o que só deve ocorrer após algumas semanas de convivência, depois de alguma intimidade estabelecida com a nuca, o pescoço, as unhas, os cabelos, a pintinha do ombro, enfim. Depois de tudo isso, mas de tuuudo isso, um dedão até que passa desapercebido. Mas socado num Rider e à primeira vista, o dedão tem efeito de balde de água fria e só faz gerar traumas.

E aí a vida da moçoila vai passando. Um dedão intempestivo aqui, um hábito não agradável ali, um comentário a favor da pena de morte acolá… E o neto da amiga da avó se casou, o filho da amiga da esposa do sócio do marido da tia já está com uma pequenininha de um ano, os amigos do marido da melhor amiga ou se mudaram do Brasil, ou se descobriram gays, ou entraram para um mosteiro… E, como previsto, os mosqueteiros, cansados da labuta, penduraram suas botinas e abaixaram suas espadas.

A moçoila acende um incenso com cheiro de lavanda para tirar o cheiro de jornal da casa e abre uma garrafa de Sauvignon Blanc. Não sente saudade de dedões, ah, isso não. Mas ela bem que toparia explorar uma pintinha nova, numa nucazinha inédita. E talvez essa cara de preocupação seja o temor, o medo de que ela esteja esperando demais por um timing perfeito e um dedão depilado. Afinal das contas, a moçoila é chata, mas que ela sabe que tem coisas que não acontecem mais nem na ficção. ah…. Isso ela sabe.

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