CLÉU ARAÚJO
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O último shot

por: Cléo Araújo

14 JUL

2012

Fazia duas semanas ela tinha um namorado novo.

Amor descoberto ao som de “Secret Smile” de Semisonic. Amor lindo, amor perfeito, amor com gosto de anos 1990.

Simplesmente qualquer coisa de tudo.

Apaixonada, descabelada e magra, como sempre quando acometida por aquela dieta de paixão, ela foi viajar. Era uma viagem marcada há tempos, antes de qualquer Secret Smile, Semisonic ou novo namorado existirem. Quase quis não ir, mas foi. Milhas aéreas. Questão de honra. Foi querendo voltar. E voltou, depois de dezoito dias contados pelo México, quando chegou a cumprimentar os passantes em Playa Del Carmen como se vizinhos fossem, preta de sol, morrendo de saudade, cheia de ideias e de
pimenta.

Com a memória ainda fresca das misturas inusitadas em Tacos e Burritos, nada poderia ser mais adequado para receber os amigos e o hombre do que um animado e apimentado jantar mexicano.

E foi assim que foi.

Visitas a três supermercados para garantir os melhores ingredientes na manufatura dos pratos.

Tudo comprado e sem assistentes, ela se internou na cozinha.

Primeiro, o guacamole. O abacate estava maduro e fácil de amassar. Coentro, azeite, sal, limão. Pronto. Verde. Depois, a salsa. Pica daqui, pica dali e mais um molhinho aperitivo suculento e ardido estava pronto. O sour cream adaptado: cream cheese com gotinhas de limão. Voillá. Alface picada, cheddar desfiado. Check.

A pobre não tinha sequer começado a se arrumar quando já eram quase cinco da tarde. E ainda faltava ele: o chilly com carne.

Pica mais cebola, pica mais tomate, maceta mais alho. Os dedos não estão cheirosos, não.

Cozinha o feijão na pressão.  A cozinha, agora, é uma bagunça aterrorizante.

Refogas, pimentões, cominho, muito cominho. Nessas alturas, sua casa era quase um pedaço do México. Até o armário de roupas cheirava a comida mexicana. Greenleaf Vanilla respingado em almofadas de sachê para deixar tudo doce, tudo como ela
queria ser, sempre.

A massa do taco, então, única coisa já comprada pronta, estava na assadeira, só esperando para ser esquentada, pouco antes de ser servida.

As quesadillas estavam montadas. Sim, havia quesadillas. Elas entrariam no forno quando o taco saísse.

Opa, faltava a margherita.

Tequila, limão, Countreau, Arno. Arriba, arriba, ai ai ai!

A mesa estava arrumada, perfeita. Tão, tão linda.

Deu tempo para um banho e um hidratante. Batom, deu. Rímel, não.

Os convidados chegam.

Ele chega.

Eles entram.

Ele entra.

O amor. Lindo. Tudo.

Todos se acomodam ao redor de sua mesa de hotel de Cancun.

O namorado se impressiona e ela ama.

Todos começam a saborear suas tortillas com guacamole, ah, o sour cream. E essa salsa? O que tem aqui? O namorado morde o tira-gosto e olha feliz, olha para ela, olha apaixonado. “Seu amor por uma tortilla”.

Ela corre para cozinha, mal participa das animadas conversas à mesa, desculpem, tenho um chilly para assistir. Todos comem e degustam a tequila ao som de Maná, antes de os pratos principais serem servidos. “Sigue llovendo, sigue llovendo al corazón…”.

Os convidados e o namorado insistem para que ela se sente um pouco. Venha, fique aqui com a gente. Não dá. Tá borbulhando. Finalmente, ela concorda. Acomoda-se à cabeceira. Antes de experimentar o guacamole, ou de comer um Doritos, ou de provar a salsa, ou de comer um amendoim, que fosse, ela resolve tomar um shotzinho de tequila.

Um só.

Um shotzinho que era, às nove da noite, o seu café da manhã.

Jose Cuervo, primeiro, pinicou os seus lábios.

Foi escorregando língua, amídalas, esôfago abaixo. Chegou à base da garganta feito um escorpião, deixando um rastro de fogo e anestesia em toda a região. A labareda tormentosa desceu violenta feito Un amor perro de Iñarritu e caiu dentro do seu estômago mais pesada e devastadoramente do que um revolucionário zapatista.

As pessoas à mesa se afastaram como que se passassem para uma dimensão paralela. O espaço-tempo se distorceu. Ela estava a léguas de distância de tudo e de todos em seu delírio tequílico.

Tudo girou.

Trôpega, magra e semi-sã ela se levantou e correu para a penumbra do seu quarto. Caiu na cama.

Ali, se murió.

Felizmente, estava tudo pronto e tudo quente, como a namorada recente e perfeita deveria fazer, mesmo que pesando 45 quilos.

Mãos amigas (do namorado? – era impossível dizer) visitaram-na semimorta em seu quarto. Checaram sua respiração. Ela respirava. Mas não conseguia falar.

De tempos em tempos, alguém ia zelar por sua sobrevivência. De lá, da cama, ela podia ouvir as conversas animadas e a aprovação de seus pratos. Uma delícia o chilly, muito boas as quesadillas, genial esse guacamole. Mas ela teve só que dormir. Não havia mais nada que pudesse fazer.

Depois desse dia, tudo mudou. Ela nunca mais tomou tequila. Nunca mais fez margherittas. Sempre come pelo menos uma castanha de caju antes de beber qualquer tipo de álcool.

Ainda hoje, prepara jantares mexicanos.

O namoro acabou.

Não pela noite quase perfeita, mas por aquelas imperfeições misteriosas que não se corrigem nem acrescentando todo o sal, todo o coentro ou todo o cominho que há no México.

 

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