CLÉU ARAÚJO
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O último tato do mundo

por: Cléo Araújo

06 JUL

2009

Tateava seu corpo com mãos de cartógrafo.

Poderia desenhá-la à mão livre, se quisesse.

Sem compasso, régua ou esquadro. Poderia desenhá-la de olhos fechados, sim, pois apreciava cada parte sua, com todos seus defeitos e perfeições.

Nomeava partes de sua anatomia como se delas fosse seu primeiro e único descobridor.

Explorava sua pele como um aluno da Escola de Sagres os mares desconhecidos: ao sabor do vento, mas apressado, curioso e sem saber se haveria viagem de volta, lá para quando e onde a vida era segura e vazia.

Era como se cada dia só tivesse existido para levá-lo até ali. Ela ilha, ele mar. Os braços ao seu redor, sitiando-a e a conservando quente e úmida quando anoitecia.

Ele se apaixonava por ela um pouco mais toda vez que sentia seu cheiro.

E se surpreendia. Quando achava conhecer a distância exata entre as sardas que decoravam seu colo, era como se um vento soprasse e um novo desenho fosse gravado em sua memória. Era mais uma parte dela que ele poderia começar a adorar. Como aquela mexa de cabelo mais claro que se soltava do grampo que ela usava para lavar o rosto de manhã; como aquela falha na sobrancelha, que de tão perfeita, parecia feita de propósito.

Amava suas axilas, seus tornozelos, a parte de trás dos seus joelhos, mas tinha loucura especial pelo formato de suas falanges: delicadas, longas e coroadas por unhas de leito fundo.

Passeava em seu corpo e contornava com a ponta dos dedos a pequena depressão que se formava do encontro de suas clavículas.

Decorou o sentido do nascimento de cada um dos pelos em seu braço. Gostava de pensar que eles só haviam aprendido a se arrepiar depois que ele havia chegado e como resposta aos cochichos em seu ouvido e aos beijos em sua nuca.

Gostava de ensaboar suas costas porque era esse o momento de amar suas omoplatas aparentes, pontiagudas e anguladas.

Apelidava suas cicatrizes – até aquelas ordinárias, deixadas pela catapora.

Precisava de seu corpo como um forasteiro de um mapa.

Era, depois de uma viagem sobre sua pele, um homem que conhecia o mundo.

Não precisava de bússola, de guia, de GPS, não precisava sair do lugar.

Ali, quando protegido entre seus seios, tudo o mais era pouco.

Ele poderia morrer. Desde que estivessem nus, a pele dela na sua, e fosse esse o último tato do mundo.

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