CLÉU ARAÚJO
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Ode ao homem brüt

por: Cléo Araújo

23 ABR

2008

Ando um pouco cheia dessa coisa cult.

Desses mocinhos fofos e de mãos lisinhas que ficam magoados quando escutam uma mulher falar um palavrão. Desses que lêem horóscopo, choram no ombro da melhor amiga, demoram 35 minutos pra arrumar o topetinho e fazem aula de body pump para ficar em forma.

Eu já os adorei. Sim, confesso. Os preferi, até. Ah, os rapazes demi-sec… Ando tão cheia deles quanto eles andam cheios de comer muffin de maçã com canela no Café Suplicy.

São os rapazotes com emaranhamento emocional digno de moçoilas castas, do tipo que preferem não comer ninguém a correr o risco de se envolverem com esse alguém emocionalmente. Não conhece?

É o homem que teria dado certo se fosse gay. Mas que, como não é, causa confusão nos outros.

Espirituosos, engraçadinhos, tímidos, mas adolescentes perdidos nos seus trinta e poucos anos.

Eu ponho a culpa no Ross. Foi por culpa dele que a gente começou a achar que homens desse tipo nos fariam felizes.

Tá certo, eles devem ter feito um tanto de mulheres felizes por aí, mas tem um outro tanto que sobrou. E é justamente esse outro tanto que não suporta mais esses caras.

Chega, enfim, o momento na vida de uma mulher em que ela pode abrir mão dos paquerinhas conceituais e assumir para o mundo que está muito mais é a fim de um Nô para lhe chamar de “Minha Branca”.

Vale a pena arriscar, mesmo que ninguém acredite, mesmo que o mocinho de bochechas rosadas com topetinho milimetricamente arrumado (aquele que fica horas no espelho para sair de casa com ar de “nem ligo”) continue achando que você quer se casar com ele e com ele constituir uma família toda linda e de bochechas rosadas.

Vale a pena assumir, para sua saúde: eu quero mesmo é um homem xucro!

O meu teria que ser um cowboy. Bonito, não adianta me vir com uma beleza subjetiva. Tem que ser uma beleza plástica, óbvia, olímpica.

Tem que ser gostoso, também, ter uns braços bons de apertar, um cabelo macio para passar a mão, um olhar cerrado e profundo. Eu particularmente prefiro que ele seja loiro. Porque eu gosto e só.

O melhor de tudo desse homem é que ele quase não fala. Sim, e o que é ainda mais fantástico: como conseqüência principal disso, você, moça que busca a felicidade, também não preciso falar. N-a-d-a!

Ele fica ali, mascando fumo e dando umas cuspidas no chão.

Quando termina, abre uma cerveja. E aí ele quer você, e te chama assim: “Ô…”

Você vai feliz da vida porque sabe que dali não vai sair uma discussão profunda sobre as eleições americanas, sobre o último filme do Woody Allen, sobre a coluna do jornalista X no New York Times, nada.

Ele só quer um beijo. Na verdade, um malho.

Oito segundos com esse homem equivalem a um ano e meio com o outro tipo, aquele, de quem você nem se lembra mais nessas alturas. Aquele, que gosta de achar que é diferente dos outros só porque é cool e assina Valor Econômico.

Esse cara coça o saco. Na sua frente, aliás. Abre garrafa no dente, resmunga mais do que articula palavras, mas não se engane: ele não é burro, não senhora! É só econômico. Para que ficar falando um monte de merda quando existem tantas outras coisas mais importantes para se fazer?

Ele dirige uma camionete (porque de fato precisa de uma, e não como uma forma de compensar qualquer outra coisa). Na sua carroceria ele carrega uma máquina roçadeira e um galão de óleo diesel. Coisas másculas, que exalam o perfume do cromossomo Y.

Ele não usa brinco, colarzinho, nenhuma dessas porras. Lava o cabelo com sabonete, fuma cigarro sem filtro e gosta de uísque puro. Nunca, jamais ouvir falar em energético.

Ele não precisa de uma produção especial para entrar no clima. E não perde o clima só porque um pernilongo entrou no quarto.

Vontade de um moço rústico, calado, cru. De um homem de mãos calejadas, bom de briga, que sossegasse sua mulher com um aperto.

Cara do mato, alma agreste, cabra macho.

Homem não lapidado, seco e sem açúcar.

Vontade de um homem brüt, que me encostasse contra a cerca, me lascasse um beijo insano e me chamasse, assim…

_“Ô…”

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