CLÉU ARAÚJO
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Ode aos calados

por: Cléo Araújo

12 DEZ

2013

Política, religião e futebol.

Diziam os sábios anciões, aqueles de outros tempos, que sobre tais tópicos não se discutia jamais. Nenhum conselho poderia ser mais adequado e aplicado aos e nos tempos atuais do que esse. Tempo de teóricos da verdade pululando aqui e acolá.

Somos alvejados como que num fuzilamento espírito-político-esportivo pelas crenças, paixões e ódios alheios. Os calados, vos digo, têm meu apoio e admiração.

Imagino se esses, caladinhos de bom senso, num surto agudo de monárquica tolice, começassem a agir tal qual um propagador da verdade tornando públicas suas não-crenças, suas não-fés e sua repudia à certas indústrias esportivas que servem, por tantas vezes, apenas para disseminar o ódio entre os iguais. Pobres de vocês, amigos agnósticos, ateus, cínicos, sarcásticos, socialistas, seriam expulsos do reino das redes sociais aos pontapés virtuais, tidos como apóstatas perdidos, comunistas hippies, almas condenadas, aculturados, brasileiros de mentira. Ninguém veria a singela pureza por trás de seus comentários secos, verdades inconvenientes e na sua visão antropo-científica sobre todo e qualquer fenômeno natural desde o Big Bang. Que sim, ocorreu até prova em contrário, o que infelizmente ainda não pode ser considerado com relação ao sopro divino.

Se levantassem-se em meio aos gritos de glória e louvação para resumir em simples frase provocativa “Guerras santas não são travadas entre ateus”. Se insurgissem sobre as gramas dos estádios em construção bradando “Brigas de futebol não são provocadas por torcedores de badminton”. Se gritassem às vésperas dos pleitos “Façam como dizem, e não como fazem”. Ah, tanta retaliação, tanta vendeta. “Ah, esses pobres homens sem alma e sem time, incapazes de entender tanto amor”.

Assistem, então, imóveis, aos clichês apaixonados em nome de messias, mandelas e maradonas, seres superiores em geral, enfim. Imóveis e calados, sim, pois escravos são de seus superegos que bloqueiem tanta coisa, tanta coisa.
Prefeririam não ver, não ler, não ouvir. Mas o fazem, e calados, melhor forma de manter a vizinhança e manifestar tacitamente seu respeito ao diferente, coisa que tantos politico-religiosa-futebolisticamente corretos não precisam ou não conseguem entender.

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