CLÉU ARAÚJO
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“On strike!”

por: Cléo Araújo

13 NOV

2007

Até roteirista em Hollywood anda cansado.

“Cansei de você, seu Tri Star, tô por aqui contigo, Mr. Goldwing Myer. I got tired. Enough is enough!”

Estão lá, de leste a oeste, todos gordinhos e com suas feições de nerd, fazendo piquete na frente dos poderosos estúdios com seus pequenos cartazes “Writers on Strike”.

A coisa é séria.

Por essa Jack Bauer não esperava…

Que delícia parar tudo. Meu sonho hoje era ter nascido roteirista no Brooklyn.

Estaria com meu boné azul marinho gasto, coçando a minha pancinha saliente sem culpa, chantageando o japinha do Heroes, colocando na parede uma das desperate housewives, fazendo Spielberg comer na minha mão.

Fato é que minhas greves pessoais, embora libertadoras, não me levariam a compartilhar o lucro do box office hollywoodiano, como querem esses ambiciosos rapazes.

Não.

Mas nem precisaria.

Uma simples greve das coisas mundanas faria de mim um ser humano mais completo, menos estressado, menos necessitado de calmantes para atravessar um dia.

Eu faria greve de cabelo, por exemplo. Não passaria pente, não pintaria a raiz, não cortaria as pontas, só passaria água em dia de calor. Danem-se os preços abusivos dos salões de cabeleireiro e às favas com a exploração das empresas cosméticas com suas escovas progressivas, regressivas, depressivas, de chocolate, de camarão, de ginseng ou de aminoácidos anabolizados. Cansei, amore! “I am on strike.”

Faria também greve de amigo. Não, não quero sair com você hoje, não vou te ligar para ouvir nem contar fofocas, não quero pegar um cineminha, não me espere para um happy hour, não, amigo, com você, só depois da gente negociar algumas coisinhas. Greve. Geral.

Também abaixaria os braços, literalmente, para depilação. O sovaco é meu, e vai ficar assim pelo tempo que eu quiser, ou pelo menos até que a tecnologia (a mesma que cria escovas progressivas, regressivas, depressivas, de chocolate, de camarão, de ginseng ou de aminoácidos anabolizados) invente algo menos doloroso do que cera quente. “Porque eu mereço”.

Pararia por tempo indeterminado de fazer leitura do horóscopo. Enquanto esses escritores não caprichassem nas previsões, eu me recusaria a abrir de novo essa página do jornal, que insiste em ser imprecisa e repetitiva comigo. Explique-se feito bula de remédio quando disser que “a estrutura astral em colapso com Mercúrio promove momentos de reclusão individual, mas de compartilhamento social”. Caso contrário, não leio. Não leio, não leio não leio, e tá aqui uma apitada no seu ouvido. Piiiiiiiiiiiiiii!

Deve ser realmente libertador fazer as coisas em volta da gente pararem de funcionar pela omissão.

Imagine todos rastejando aos seus pés, pedindo por favor para você voltar antes que o mundo entre num colapso irreversível. Astrólogos desempregados fazendo filas na porta do INSS, L’Oreal Paris entrando em concordata, Jaques e Janine fechando franquias e filias, amigos chororôs, caindo bêbados pelas sarjetas, morrendo de saudade de suas críticas e do seu mau humor…

Ao perceber algo sério assim como resultado da minha paralisação, talvez um espírito de solidariedade e de respeito pelo bem comum me fizesse voltar.

Mas antes, eu desceria até uma praia, com meu cabelo de Capitão Caverna, sozinha, cagando para os astros e fazendo tranças nos pelinhos das axilas.

Tomaria uma cerveja gelada. Bem ali, assistindo ao caos iminente, e arrogantemente imaginando como ficaria esse mundo lá fora se não fôssemos nós, esses fingidos a tolerantes…

Faria um brinde aos franceses, outro à CLT.

E voltaria para senzala… Como todas as mortais de sovacos depilados desse planeta.

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