CLÉU ARAÚJO
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Para o dia nascer feliz

por: Cléo Araújo

03 MAI

2006

Que coisa é essa que às vezes fica faltando na vida e que faz a gente se sentir até culpado por estar achando que algo está faltando na vida? Sendo que a vida da gente é boa e, pior, muito melhor do que a da maioria das pessoas que a gente conhece?

É mais ou menos assim: você tem um emprego, o que já a coloca num seleto grupo de altos privilegiados. Além disso, tem um salariozinho razoável, o que a coloca num seleto grupo de altos privilegiados mega plus vip. 

Aí, você tem uma casa. E vive nela sozinha. Ou tem pelo menos um cômodo só para você. Você coloca o copo onde você quer, na hora que você quer, manda no controle remoto da TV, cria plantas venenosas se tiver vontade, decora um altar em adoração a Krishna , enfim, tem o que muita, mas muita gente mesmo inveja mais do que tudo no mundo, uma coisa que provoca cobiça até na Angelina Jolie, acredite: privacidade! 

Além disso, você não tem precisado pegar ônibus porque quitou o financiamento do seu carro. Você tem dinheiro para por gasolina, inclusive, pois seu salariozinho bacana permite essa extravagância. De vez em quando você extrapola e substitui o pão francês pelo croissant , veja isso, que luxo de vida essa a sua. 

Você tem um pai e uma mãe, que, por todos os céus de todos os planetas, são simplesmente o supra-sumo do supremo estado de paternidade sensacional que qualquer ser vivente poderia desejar. Irmãos? Melhores amigos. Melhores amigos? Praticamente irmãos. Roupas da estação acabam de chegar ao seu guarda-roupa. São poucas peças, mas garantem o visual da moda, pelo menos da sua moda. E faz tempo que você não pega nem uma gripezinha, nem um tersol, nem um bichinho geográfico! Saúde de ferro a sua.

Você é feliz sim. Muito. E você sabe disso. Mas ser feliz não basta. Porque falta alguma coisa. 

Mas que raio de coisa é essa que fica sempre faltando? Não, não venha ninguém dizer para você que é amor, ombro amigo, abraço de homem porque, sei lá, às vezes, até quando isso está presente, a tal da alguma coisa misteriosa continua faltando. Ou não? 

A gente tem sempre que querer a outra coisa. Se o emprego é bom, você tem certeza de que estaria muito mais feliz se abrisse uma loja de chás alemães. Se o cabelo está liso, você tem convicção de que se estivesse ondulado, frisado ou com bigudinhos estaria muito melhor. Se você pede um chopp, descobre que uma taça de vinho tinto teria descido muito mais suavemente pela sua garganta indecisa. 

O que é isso? Essa insatisfação crônica, essa coisa que não sei? Falta um bebê? Um filhinho? Uma viagem para Índia? Uma colcha de plumas de ganso? Uma pasta de dente modelo pump ? Uma extensão elétrica? Um doutorado? Uma fé? Adubo para as plantinhas? Sexo? Drogas? Rock and roll? 

Insatisfação demais cansa. Cansa quem tem. E todo mundo tem. Não? 

Há que se considerar a possibilidade disso fazer parte da vida: ser incompleto. Se essa é a essência do que é ser humano, talvez então a gente demore a vida toda para aprender isso. E quando aprendemos, pimba: game over. 

Agora se realmente houver caminhando pela crosta terrestre uma pessoa não-monge que seja absolutamente satisfeita, talvez o que falte mesmo seja coragem. Não coragem para pular de pára quedas, mas coragem para tomar uma atitude. Coragem para admitir que você não vai ficar mais nova entre hoje e o mês de julho, coragem para assumir que a vida está passando e você está aí, acomodada, ou se matando de fazer um milhão de coisas ao mesmo tempo, esperando que o que falta na sua vida ou caia na sua cabeça feito um cocô de pomba ou venha por mérito porque você se esforçou pra caramba. 

Coragem para se declarar para alguém, largar seu emprego, mudar de país. Coragem para assumir as rédeas da sua vida, fazê-la sua, só sua e de mais ninguém. Coragem para mandar alguma coisa para o alto. E é isso mesmo que eu estou prestes a fazer, assim que colocar um ponto final nesse texto.

E ponto final.

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