CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Pela metade

por: Cléo Araújo

05 MAR

2008

No princípio eu queria o moleque.

Aquele, que descia esmerilhando no seu carrinho de rolimã a rua da frente de casa. Achava um charme o joelho ralado, a voz que ia ficando rouca, as manchas roxas na canela, o tênis estraçalhado. Me apaixonei. Festinhas dançantes só tinham graça se ele viesse e me tirasse para dançar. Queria ele. Namorar com ele. E andar de mãos dadas com ele pela praça.

Um dia, eu me esqueci. Não brinquei mais na rua. E o moleque perdeu o status na minha vida.

Queria ficar com os bonitinhos da escola.

Aquele, da 7ª série, que andava com a calça de cós largo e tinha um franjão que jogava para trás num movimento sexy quando ela lhe caía no olho. Ele andava de skate, e eu comecei a freqüentar espaços de skatistas à tarde para vê-lo em ação. Ele gostava de Talking Heads. Eu passava trote na casa dele. Ligava e desligava, só pelo prazer de ouvir sua voz grossa de 7ª série. A escola só tinha graça se eu o encontrasse na hora do recreio. Me apaixonei. Queria ele. Namorar com ele. E andar com ele de mãos dadas pelo pátio do colégio.

Mas um dia eu mudei de escola.

E com o colegial vieram os meninos que iam com o carro do pai para ficar lá na frente do portão, paquerando as menininhas na hora do intervalo.

Eu queria aquele, que usava óculos escuros e tinha o cabelo raspado de quem acabara de passar no vestibular. Ele ouvia Men at work. A boate só tinha graça se ele entrasse, lá pela meia-noite, e viesse para perto de mim dançar uma música da Corona.  Me apaixonei. Fiquei com ele. Namorei com ele. Mas nunca andei de mãos dadas pelos barzinhos da cidade, porque o namoro não passou de 20 dias. Mas a vida era cheia de surpresas quando se escuta Corona em um dia e Alphaville no outro. O universo todo me esperava, eu ainda iria me apaixonar milhares de vezes.

Um dia acordei e achei que tivesse virado mulher. E uma mulher se apaixonaria por um homem.

Aquele: cinco anos mais velho do que eu, último ano da faculdade, trabalhava e era lindo. A vida só tinha graça se ele estivesse comigo no carro ouvindo Aerosmith, em casa no sofá assistindo “Feitiço do tempo” ou o tempo todo fazendo qualquer coisa inútil. Queria ele. E queria ele mais. E queria de novo. Fiquei louca, me apaixonei, chorei, rastejei, virei metade de mim. Mas não me casei com ele, embora tivesse visto a cena por incontáveis vezes em minha mente. Não éramos feitos um para o outro, nos amávamos em épocas diferentes. Demorou, mas eu entendi tudo. Expliquei, até. E fui continuar sendo feliz.

Aí achei que tinha virado mulher mesmo, dessa vez, de verdade. Fui morar sozinha, cuidar da minha vida. Mas sentia uma saudade de me apaixonar. Queria tanto, pedia tanto que, um dia, consegui.

Aquele: lindo, gentil, do mundo, cheiroso, alto, meio a soma de tudo. Queria ele, queria ele mesmo que fosse só por um segundo. Os dias só tinham graça se eu estivesse falando com ele por email, fazendo gracejos virtuais à distância, imaginando o próximo jantar sobre almofadas marroquinas ou o próximo gole de conhaque sob a neve. Queria andar de mãos dadas com ele fosse onde fosse, em qualquer continente, em qualquer planeta, em qualquer submundo ou restaurante três estrelas. Nem que fosse só por quinze minutos. Quinze efêmeros e eternos minutos. Ele foi tudo que eu quis. Pelo tempo que eu pude.

Virei então uma dessas com pseudopaixões passageiras.

Não fazia mais questão de nada específico, e muito menos de nada genérico. Homens vinham em seus carrinhos de rolimã, fazendo manobras em seus skates, preparando coquetéis, exibindo os vincos de sua virilha em suas calças largas, desfilando seus ternos e laptops, fazendo solos em seus baixos, carregando suas pranchas de surfe, exibindo seus lados espirituosos, enfim, eu já tinha visto e me apaixonado por aquilo tudo.

Não fazia questão de nenhum deles.

Mas, eventualmente, um deles eu chamava para entrar.

E foi esse convite que revelou meu verdadeiro lado negro.

Eu cedia em tê-los por perto, mas tinha a intenção de mantê-los à distância. Em pouco tempo deixava que a minha vida se acostumasse à presença do novo ser. Quando via, a minha vida já não me pertencia mais. O dia era só uma espera pelo próximo telefonema. A noite um nada vazio se ele não estivesse comigo. “Vai sair com os amigos? Mas por que, se tenho eu? Vai viajar sozinho? Mas por que, se tenho eu?” E eu nunca quis viajar junto com uma pessoa que não me quisesse de forma declarada e acima de qualquer outra. Eu nunca quis compartilhar uma refeição com uma pessoa que hoje me chama de princesa encantada e amanhã de “essa louca com que eu me meti e que não sai do meu pé”. Eu nunca quis ser amiga dos amigos dessas pessoas, estou satisfeita com os meus amigos que são muito melhores do que os amigos de qualquer um que venha brincar de entrar na minha vida só pra fazer graça. Eu nunca quis freqüentar as casas dessas pessoas porque casas novas de novas pessoas me causam uma preguiça gigante. Eu nunca me coloquei na posição de namorada dessas pessoas. Mas ter cedido em primeiro lugar à entrada dos seres na minha vida foi o meu maior erro desde o moleque do carrinho de rolimã: eu transformei essas pessoas nas minhas ex-paixões.

Assim ficou fácil viver uma obsessão. De tanto me preocupar em estar apaixonada, entrava nos relacionamentos, mesmo sem querer, e quando via, já estava com o pé no peito do outrora conquistador insistente. O mesmo, que se transformava em fugitivo muito pouco tempo depois.

Depois de perdida, não adiantava mais eu tentar recuperar a minha outra metade, a que fazia de mim alguém natural, que sonhava em se apaixonar de fato, e não em obcecar pela primeira oportunidade de relacionamento que surgia. Eu virava a louca, a que não vivia sem, a que estrangulava. Fiquei com saudade até de pé na bunda. Nenhum teve a dignidade nem os culhões para fazê-lo. Lidei com sumiços, com os recados subliminares, com as fisionomias vagas de quem está pensando que logo, logo ele estaria de volta à sua vida de conquistador e longe daquela estranha neurastênica. Essas pessoas, que não preenchiam meu mundo, partiram, e como eu estava pela metade, elas conseguiram me deixar em pedaços. A metade de mim que sobrava ruía. E eu virava um pó triste.

E aí eu não queria mais sentir isso. Achava aquele pó ridículo, tinha ódio daquele pó, tinha vergonha, era cafona, brega, fora de moda. Eu não poderia nunca mais deixar o outro pensar que eu queria aquilo que eu nunca quis. E não precisaria nunca mais usar tantas linhas e tantos parágrafos para explicar algo tão simples e patético quanto a idiotice de uma mulher depois que ela acha que virou uma de verdade pela segunda vez.

“Ela quer amar, quer amar tanto, que perde o controle sobre o que sente por si própria, achando que tudo se resume no amor que ela vai sentir pelo outro.” E o outro, coitado, nem tem mancha roxa nas pernas, nem a cabeça raspada do vestibular. Não anda de rolimã. Não dança Corona. Mas a gente aceita. E se ferra.

O resultado é que não há praça, pátio de colégio ou boate na qual eu consiga me ver de mãos dadas com alguém. Não acredito em amar de leve, se apaixonar gostosinho por um fedelho de 22 nem por um coroa de 48. Não vejo a vida real com a graça dos filmes.

Não há mais a expectativa do encontro na rua, pois lá homens apaixonantes e corajosos de mim, homens que são a soma de tudo, não vagam mais.

A paixão fugiu dos meus arredores.

E eu quase agradeci. Faz tempo que estou inteira.

Um dia, quando qualquer coisa chegar até aqui, talvez eu nem pergunte por quê. Por preguiça ou por descrença mesmo.

Vai ser o dia em que eu não vou precisar pensar. Nem me esforçar. Nem esperar um telefonema sequer. Nem calcular a hora certa de fazer um. Nem correr atrás de fugitivos, nem meter o pé no peito para mostrar que isso que eu sinto é amor.

Vou ser feliz sem querer. Deitar em almofadas marroquinas e saborear um gole de conhaque sob a neve.

Tudo ao mesmo tempo.

Nem que seja por quinze minutos.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.