CLÉU ARAÚJO
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Pensamentos numa pasta de rascunho

por: Cléo Araújo

15 NOV

2005

Eu já tinha escrito uns cinco emails para ele. E todos iam parar na pasta de rascunho. Sentia uma coisa, uma vontade de dizer coisas. Ia lá. Escrevia. Salvava. Deixava lá por um tempo. Voltava. Lia. Percebia que não era nada daquilo que eu queria dizer. Em uma, me achava grosseira demais; em outra, complacente demais; em mais outra, fria; na última, muito quente. Vingativa. Apaixonada. Descobria, por fim, que nenhuma servia. E uma outra então começava a ser escrita.

Um turbilhão de sentimentos circulava pela minha cabeça: raiva, saudade, medo, incerteza, certeza, paixão, desprezo, desespero, ódio, solidão, alívio. As coisas boas e as coisas ruins trocavam de lugar na minha cabeça como numa dança das cadeiras. “Melhor assim!” “Que droga, por que assim?” Às vezes dava vontade de chorar até não sobrar mais nada. Outras vezes, tinha certeza de que teria coragem para me humilhar, para pedir para ele ficar comigo feito uma doida ensandecida. Em outras, ainda, dava vontade de vingança, de fazer sofrer, de desejar todo o mal do mundo e de amaldiçoar para sempre a vida besta que com certeza ele passaria a ter dali para frente. Pegava o telefone. Voltava ele para o gancho. Ficava imaginando pensamentos que não eram meus, interpretando comportamentos que não eram meus, tentando explicar para mim mesma o inexplicável, porque eu simplesmente não sabia. Virei uma ridícula, que tentava arrumar razões para me convencer de que não, não poderia ser só aquilo.

Questionava atitudes dele, me arrependia de atitudes minhas. O achava covarde, imaturo, egoísta e errado. Simplesmente errado para mim. E de vez em quando tão certo, tão perfeito, tão encaixado. Pensava em guardar só as lembranças boas de nós dois juntos. Mas a única coisa que parecia não querer me abandonar era aquela sensação de decepção gigantesca.

Tudo ia e vinha. Tudo era refletido, ponderado, repensado dentro de mim. Não entendia nada, mas pensava tudo.

E ficavam cada vez mais numerosas as mensagens da pasta de rascunho, que jamais se transformaram em itens enviados. Elas eram, no fundo, rascunhos de uma tentativa onipotente de apressar as coisas, de resolver do meu jeito o que já havia sido resolvido do jeito dele. Um pedido. Uma bronca. Uma estratégia. Um artifício. E não deveriam ser. E por isso não serviam e iam ficando por lá, naquela pasta. Eram, na minha vontade de me expressar, desabafos que não se concretizavam. E que não se concretizariam jamais por excesso de amor próprio. Felizmente, pelo excesso bem-vindo de amor próprio.

Já eram doze as mensagens na pasta de rascunhos. Resolvi parar. Resolvi ir embora. Esperar. E aprender a viver no limbo, sem entender os porquês do outro e com a minha alma em vai-e-vem.

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