CLÉU ARAÚJO
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Petit four

por: Cléo Araújo

06 DEZ

2010

Não passaria pela minha cabeça nem por um segundo. Nem nas mais ousadas fantasias de travesseiro. Nem objetiva, nem subjetivamente. Não passaria pela minha cabeça dormente, acordada, carente, sem tempo, tempo de sobra. Não passaria nos meus pensamentos mais escondidos, envergonhados, secretos. Não passaria como uma ideia vaga, disfarçada de mim para mim, uma ideia louca e que não deveria passar pela cabeça de ninguém, muito menos pela minha, que lida tão mal com culpas e pior ainda com dolos. E o dilema é tanto que até termos jurídicos e advérbios de tempo de outrora invadem meu vocabulário.

Não desejei. Não prestei atenção. Não quis, não que eu saiba. Não passaria porque nunca passou, nem disfarçado de desejo outro, qualquer, tímido, oprimido. Não passaria nem no inconsciente, nem sob hipnose, nem a caminho de um porre de gin, nem brincando de jogo da verdade com Freud. E eu preciso acreditar que eu acredito nisso com tanta força e certeza que chega a latejar.

Eis que ali, logo ali, a um metro e meio de onde sigo negando com as mãos nos joelhos, o pescoço irrequieto querendo estralar, ele, deitado, meio torto, braço caindo do sofá, de bruços, franjas da minha manta de linho deixando sulcos em sua bochecha. Tudo isso, tudo isso que nunca passou pela minha cabeça, faz com que eu pense que não. Nunca. Por isso eu me protejo dizendo que não há culpa a se expiar ali, por mais que aquilo tivesse passado pela minha cabeça, o que, aliás, não aconteceu. Não passou, eu sei, eu sei, shhhhh, não passou, eu já ouvi, e não tem ninguém mais aqui para te escutar.

Quero tirá-lo do sofá, quero que ele não esteja ali, quero que desça as escadas a pé ou entre no elevador sem olhar para trás, ligue o carro, saia andando, chame um taxi, “peça para sua mãe vir te buscar, mas, por favor, meu filho, suma.”

Quero acordá-lo só para encontrar com aqueles olhos vermelhos de quem bebeu além, quero ouvir aquele “oi” amassado pelo sono e assistir ao seu espreguiço compassado pela ressaca, quero puxá-lo pelo cabelo numa bronca sensual, quero mordê-lo, até. Nunca passaria pela minha cabeça morder alguém de ressaca acordando no meu sofá. Ele não sabe que ele nunca passou pela minha cabeça. Ele não sabe que além de eu ter negado tudo aquilo, pedi mil vezes para que algo daquela natureza, tão crua, jamais me acontecesse. Achava o fim. Achava cafona.

O pior é que, agora, ele vive. Está de pé, coçando a nuca. Vem vindo até a cozinha e eu penso que não há nada em comum ali, entre nós dois, o fogão e a geladeira. Ele abre um pote de bolachinhas de limão “muito iguais àquela que a tia-avó dele fazia em Caxambu da Serra”, sei lá, e eu tenho cara de quem quer saber da sua tia-avó? Tenho vontade de pará-lo com um rugido, antes que ele arremesse o maldito petit four para dentro da boca: “Por que eu?”. Mas ele vem, ele vem, seus cílios compridos e meio loiros, sua calça jeans desabotoada e suas meias que parecem ter vida própria tentando sair sozinhas dos seus pés, sua cara de primeiro colegial, de “minha maior preocupação é o simulado do Anglo”. As mãos chegam a minha cintura, acompanham meu pobre e descontrolado corpo que tenta coar um café (e nesse momento eu penso que eu uso o termo petit four para me referir a uma bolachinha doce, e nesse momento eu penso no ato vintage de coar um café). Eu me desculpo ao cosmos por tudo, querendo, lá no fundo, não sentir culpa por nada simplesmente porque talvez eu mereça isso de mim.

Ele beija meu pescoço, sem saber ou se importar, ou ouvir, ou entender o que é um maldito petit four. Ele é um ópio e nada vale se a verdade é que quero tragar a beleza do que ainda é cru. Feito uma inocência irresponsável ou uma irresponsável inocência, eu percebo que estou quase cansada de mim. Por isso, e finalmente, eu puxo seu cabelo.

Nem tudo precisa passar pela minha cabeça antes de acontecer.

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