CLÉU ARAÚJO
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Poção #8

por: Cléo Araújo

31 OUT

2007

Algumas turmas da escola de inglês haviam ficado responsáveis por montar as tendas de atração da festa de Halloween.

A minha e de mais três amigasseria uma loja de poções mágicas.

Depois de uma expedição aos mercados e camelôs e de uma devassa nos armários das cozinhas e dos quartos de nossas mães e avós – onde buscávamos vidrinhos de perfume, palmito, xampu, picles, talco, xarope, qualquer coisa para esvaziar, lavar e encher de líquidos mágicos – esperamos a noite de lua nova para nos reunirmos e começarmos o trabalho. Poção, enfim, é coisa que se prepara sob lua nova.

Não havia uma fogueira, não dançávamos nuas e nem entoávamos cânticos pagãos. Mas rolava sim uma musiquinha do Cranberries ao fundo. Nós cortamos (“do you have to, do you have to, do you have to let it linger”), amassamos (“oh my life, is changing every day, in every possible way”), picamos (“what’s in your head, in your head, zombie, zombie, zombie”)… Canalizamos todo o nosso poder para a preparação daquelas receitas, extraídas sim de nossa cabeça, mas baseadas na mais conceituada literatura de feitiçaria que se podia encontrar numa época em que não havia nem Google, nem Wikipedia, muito menos Harry Potter.

A poção #1 foi preparada com chá de pétalas de rosa e canela, para fortificar laços de amizade (tomamos, todas, uma xícara dessa antes da festa); a #3 levava gengibre e cominho, para proteção; a #10, uma das minhas preferidas, não se bebia, mas se jogava sobre o corpo durante o banho: chá de folhas de manjericão com sementes de sândalo. Tinham também os buquês, embrulhados em pequenos pedaços de tecido branco amarrados com uma fitinha vermelha. Poderiam ser usados como sachês ou em infusões. E um creme, de cardamomo, gengibre e arnica, para dores musculares.

Lá fomos nós, num estilo meio indiana, meio Bruxa de Eastweek, para a nossa loja na noite da festa. Enquanto organizávamos a nossa, íamos nos divertindo com as outras: a barraca de vodu (cinco meninos vestidos de fantasmas de escravos, coisa de dar um certo medo mesmo), a de brinquedos de mágica (daqueles que vinham num kit, com sangue do diabo, cocô sintético, um dedão falso e um lenço), a de tarô e búzios (duas japonezinhas tímidas vestidas de índias americanas), a da bola de cristal e até a de um Merlin gordinho, com uma pedra e uma espada. Mas um dos apogeus da festa era mesmo um desses canhões de luz (que refletem o feixe no céu) montado na porta da escola. Foi especial porque não era coisa comum. Se via de longe. Dava arrepio. Parecia mágica…

De repente ele veio, se encostou no balcão e me chamou.

Tinha um topete branco no cabelo, parecia talco. Se tivesse que chutar sua fantasia, diria se tratar de uma espécie de vampiro grunge, uns três anos mais velho do que eu. Nunca tinha visto aquele menino pela cidade. Irmão de alguém? Primo de alguém? Morcego de alguém? Teen spirit de alguém? Sei que conversamos. Quando perguntei sua idade, disse que tinha 234. Eu ri, ele pediu nossa “carta” de poções, perguntou se eu indicava alguma, e eu me senti uma bruxa somelier quando sugeri a #8: “para encontrar o verdadeiro amor”. Ele tirou o dinheiro do bolso, me olhou nos olhos e pegou o vidrinho da minha mão, não sem a tocar de leve. Prometeu voltar, caso funcionasse. Piscou e se perdeu para sempre entre chapéus pretos pontudos, ogros, múmias e zumbis.

O tempo passou e eu nunca mais produzi poções. Ainda acredito na magia dessa ou daquela especiaria, mas não cantei mais Cranberries à luz de uma vela verde enquanto misturava gengibre e cardamomo. Perdi a inocência de bruxa. Não consigo mais entender essa suposta harmonia entre uma raiz ardida e uma semente esquisita.

Mas hoje, nessa tarde de Halloween, eu me lembrei dessa história. Foi conversando com uma amiga, uma das sócias na loja de poções (a #1, como se pode ver, provou seu efeito: ainda somos amigas, quase 15 anos depois). Ela, também bruxa enferrujada, não se lembra de nada. Nem do moço, nem de ter me visto conversando com um vampiro grunge de topete branco, nem de metade das nossas receitas, nem da letra de “Linger”, nem de nada. Mas eu me lembrei! Me lembrei muito bem. Dele (marotinho, articulado, alto, tronco alongado, cabelos grisalhos completamente fora de hora e fora do topete de talco, mãos grandes, bem feitas, olhos quase verdes, quase castanhos) e da receita #8: noz-moscada, baunilha e um fio de açafrão.

Não que eu ache que o verdadeiro amor seja um vampiro grunge de topete branco de 234 anos.

Não…

Mas muito menos que seja um humano qualquer fantasiado de príncipe encantado cafona. Esse, de espécie mortal, jamais teria tido a presença de espírito de usar a palavra “carta” para se referir ao nosso humilde rol de poções, jamais teria desembolsado três reais pela #8, muito menos teria conseguido sumir para sempre em meio aos ogros, múmias, zumbis ou coisas muito mais ameaçadoras que existem por aí, como as pessoas desinteressantes desse mundo minúsculo.

É só que talvez seja hora de voltar aos caldeirões sob uma noite sem lua. Talvez seja hora de deixar o gengibre e o cardamomo conversarem. Seja tempo de encontrar a poção das poções, e que ela traga até aqui alguém como esse meu vampiro.

Há que existir uma erva santa, uma pimenta milagrosa, uma semente divina, um bálsamo com poder.

Não quero coisa comum.

Quero o meu canhão de luz, com seu feixe refletido no ar.

Quero coisa que se veja de longe.

Dê arrepio.

E que pareça mágica.

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