CLÉU ARAÚJO
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Presente!

por: Cléo Araújo

13 JUL

2011

O cheiro do mimeógrafo, a cadeira dura de fórmica verde - desenvolvida com propósito único de achatar bundas e entortar costas -, as lâmpadas fluorescentes, o script do jogral colado na pasta de papelão forrada com papel laminado verde…

Na parede da porta, fileira rente à parede, aquela gente que via a lousa com o canto dos olhos. Na primeira e na segunda carteira, estavam elas, as japonezinhas superamigas, quase gêmeas siamesas de tão parecidas e grudadas. Fofas e silenciosas. Duas bonecas de Kyoto, mas ninguém se enganava, eram máquinas de tirar dez, rainhas dos boletins, fadadas à USP desde os tapetinhos Montessori. Logo atrás delas, o CDF isolado, o sujeito que lia tudo, nunca faltava, copiava tudo, o primeiro a chegar, o cara que acendia a luz da sala.

Às 07h da manhã lá estava ele, feliz em dar início à sua sessão de achatamento de bunda, livro aberto, adiantando a tarefa da semana vindoura. O fato de ele ser o último a ser escolhido no time de futebol na aula de Educação Física não o abalava em absoluto. Só que com todo esforço, era um cara de média 8,5.

Sentava-se perto das japonesinhas para tentar o dez por osmose. Da quarta carteira para trás, reuniam-se os largadões pré-grunge. Eram os caras que se sentavam de lado, sempre com uma perna para fora da carteira, tênis com silvertape e mochila caída no chão, aberta, cuspindo papéis amassados e cotocos de lápis, poluindo o corredor, causando tropeços, geralmente deles próprios. Eles adoravam contar que faziam aula de guitarra. Ou bateria.

Cruzava-se a fronteira e chegava-se, então, ao Greenwich da sala de aula. Outros países, idiomas, outros traços culturais  determinantes.

Nas primeiras carteiras dessa região viviam os participativos, especialmente articulados quando se tratava de uma aula de história ou literatura. Falantes, comunicativos e chatos, evidentemente. O professor mal abria a boca, a caderneta ou o livro no ponto do dia e lá vinha o animadinho geminiano metido a locutor de telejornal “Professora, vamos falar sobre a Revolução Francesa hoje? Qual foi o papel de Robespierre na Tomada da Bastilha? Vai cair o capítulo do “sans cullotes” na prova bimestral? Vai ter trabalho sobre as Guerras Púnicas?” Eles geralmente eram os relatores dos seminários.

Seguindo mais ao sul nessas fileiras da região mediana estava a ala hippie. O pessoal que gostava de desenhar nas carteiras e fazer picotes de papel. Essa galera sempre esquecia o material, ia para escola com a roupa do corpo e um estojo jeans com uma Bic sem bundinha. Livro e caderno eram artigos de importância menor e eles sempre acabavam tendo que juntar a carteira com o colega do lado; pura formalidade, pois continuavam lá, no seu mundo de picotes e arte sobre carteiras. Às vezes, desenhavam no próprio corpo, ficavam dias com um símbolo de paz e amor estampado no antebraço.

No fundão, os bagunceiros, os trombadinhas causadores, os que gostavam de pensar que tinham certa tendência à delinquência. De repente davam uns gritos, umas risadas altas, uns chutes no amigo do lado. Dominavam as aulas de Educação Física, eram os caras que escolhiam o time, os virulentos, uns fulanos com presença, diga-se. O gatinho da sala, aliás, não raramente estava aí, nessa ala. Eles eram o terror dos professores, viviam suados e eventualmente, nas séries mais iniciais, carregavam tiririca no pescoço depois do recreio. Gostavam de tomar Coca Cola para fazer campeonato de arroto, mas sempre guardavam um especial pra soltar bem no meio da quarta aula, quando fossem responder à chamada da professora de Educação Artística, aquele ser detestável.

Na fileira próxima à janela, repetia-se o padrão da fileira da porta. Ah, o povo das paredes e suas idiossincrasias. Nas primeiras carteiras, a versão masculina das japonesinhas fofas e arrasadoras. Eram os japonesinhos fofos e arrasadores, os moleques que dominavam a arte da cartografia. Não tinha quem fizesse um mapa mais bonito do que eles, nem a Geoatlas. A Ásia era sempre um show de dregradês, o mapa hidrográfico da Amazônia um festival azul e verde em lápis aquarelável. A carteira, superorganizada e limpa e seus cadernos, nenhuma orelhinha sequer. Eles nunca faltavam, nem por virose, nem por catapora, nem por conjuntivite, nem porque fazia dez graus e a mãe tinha dó de colocá-los dentro da perua às 06h30. Mais para trás, ficava o quarteto de amigas inseparáveis que poderia ter vindo diretamente da década de 60 ou do elenco de Grease. Moletom igual, mochila igual, canetas de 24 cores iguais, tiaras iguais, voz igual. Até nota igual elas tiravam.  Colecionavam papel de carta. Sua maior meta era superar os mapas dos japoneses. Usavam meias soquetes com rendinha até na Educação Física e adoravam a aula de Educação Artística.

Tinham nojo dos virulentos do fundão e seus arrotos.

Atrás delas, curiosamente, o vácuo. Carteiras vazias. O limbo.

Na hora do recreio, miscigenação sem exageros.

Os picotadores hippies se juntavam aos agitadores do fundão. Eles gostavam de praticar esportes na hora do recreio. O quarteto de Grease dividia seus enroladinhos de salsicha e fantas com as japonesinhas indestrutíveis. O CDF que tentava o dez por osmose se sentava debaixo de uma árvore com os japoneses bons de mapa. Eles levavam o caderno até para o recreio e ficavam brincando de descobrir o valor de x.

Os comunicativos gostavam muito do xerox. Estavam sempre querendo fazer um jornalzinho, ou fundar uma chapa do grêmio, ou reivindicar algum direito que julgassem desprotegido ou violado, termos, aliás, que adoravam utilizar na frente dos professores de português.

A vida escolar, estrutura de castas. Pouca coisa deixava alguém mais nervoso e apreensivo do que um sorteio para trabalho em grupo.

Juntar com a carteira do lado por 50 minutos provocava certa sudorese, mas era suportável. Mas sorteio de grupo? Exposição máxima ao incerto, ao imprevisível, imagine semanas tendo que fazer pesquisas ao lado da sua antítese? Senhor dos mapas +  hippie dos picotes = John Nash + Govinda. Menina saída de Grease + CDF isolado = Ursinho Carinhoso + Thom Yorke. Comunicativa + grunge = impossível – “ah, põe meu nome no trabalho, aí”.

E lá ia ela, reivindicar seu direito máximo: o de fazer o trabalho sozinha.

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