CLÉU ARAÚJO
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Presidente, interrompido

por: Cléo Araújo

15 AGO

2005

Eu tinha nove anos. Pouco tempo de existência, mas o suficiente para assistir TV e arquivar informações na cacholinha coberta pelo cabelo mais bizarro que uma menininha de nove anos poderia ter. Informações que mais tarde acabariam por se transformar nas minhas primeiras memórias políticas. Nesses tempos, a minha diversão era comprar sorvete Eski-Bon da Turma da Mônica, aguardar a passagem do cometa Halley, munida da minha super luneta mágica e – embora eu ache que não pudesse ser considerada uma criança freak-nerd - assistir pela TV as comemorações pela eleição do novo presidente do Brasil, o senhor Tancredo Neves. O “Tranquedo”, como ele ficou conhecido lá em casa. Era assim que minha irmã de cinco aninhos o chamava.

O movimento das “Diretas Já” – que eu também assistia na televisão (juro, eu não era tão freak-nerd quanto parece) – tinha começado um pouco antes, mas ainda não tinha vingado. Tinha só começado a reunir (de um mesmo lado) uma ‘galerinha’ da qual a gente ainda ia ouvir falar bastante um pouco mais para frente.

Ainda ia levar um tempo para que meus pais pudessem sair de casa para votar, de próprio punho, no presidente da república, e um tempo ainda maior para que eu pudesse sair de casa para votar, apertando botõezinhos, no presidente da república. Mas naquele ano, naquele dia, o que importava era que todo mundo estava muito feliz, todo mundo estava rindo mesmo. O senhor Tancredo Neves tinha uma cara de bonzinho, eu gostava da carinha dele. E esses eram os maiores dos julgamentos políticos que eu poderia fazer aos nove anos. Achava que já que todo mundo parecia estar feliz, deveria haver razões para isso. Mesmo que ninguém tivesse conseguido ver o tal do Halley.

Mas, de repente, o Sr. “Tranquedo” morreu. E todo mundo ficou triste de novo.

E aí entrou na história e nas minhas memórias políticas José Sarney. Que para mim era sósia de um dos personagens do filme “As Sete Caras do Dr. Lao”. Ele era o vice do senhor Tancredo e assumia a presidência do Brasil. Mas a impressão que eu tinha era que ninguém sabia bem quem era aquele Sarney. Nessa época Malu Mader era “Glorinha da Abolição” e o único partido que eu conhecia era o tal do PMDB. Eu achava que só existia esse. Embora não soubesse bem o que significava um partido. Mas logo eu descobri. Foi quando, aos dez anos, fundei e encabecei uma chapa para concorrer à eleição do grêmio da minha escola (ok, talvez eu fosse meio freak-nerd). Comecei a entender o que significavam os partidos. Descobri que havia muitos outros além do PMDB. A minha chapa da escola perdeu as eleições para a única outra concorrente, encabeçada por meninos de catorze anos. E eu comecei a entender tudo!

Comecei também a comprar coisas com outro dinheiro, não mais o Cruzeiro, e sim o Cruzado. E depois, o Cruzado Novo. A gente fazia estoque de leite em casa, de sabão, pasta de dente, sabonete e óleo. Os supermercados tinham mais funcionários renovando os preços nos produtos do que clientes fazendo compras. Era estranho.

Eu tinha chegado, então e finalmente, à quinta-série. E nesse ano aconteceu um movimento agitadíssimo no país: finalmente meus pais iriam sair de casa para votar no presidente da república. Eram tantos candidatos, mas tantos, que ficava difícil decorar todos os jingles das campanhas na TV. Mas os de Afif Domingos (“juntos, chegaremos lá, fé no Brasil”) e Ulysses Guimarães (“bote fé no velhinho, o velhinho é demais, bote fé no velhinho, ele sabe o que faz”), ah… Esses se impregnaram na minha mente para todo sempre. E tinham ainda as duas figurinhas peculiares: Marronzinho e Enéas, que sempre ganhavam nas eleições simuladas do colégio, promovidas sempre pela professora de Educação Moral e Cívica. Mas eu queria mesmo era fazer campanha para o Sr. Mário Covas, de quem fui tão fã, mas tão fã, que virei Tucana. Fui Tucana aos onze anos. Ia pra escola vestida com as cores do PSDB, consegui tirar os acordes do jingle do Covas no piano, ia aos comícios (quando aconteceu dele ir até Marília durante a campanha), enfim, militei pelo Sr. Mário Covas. Mas ele nem chegou ao segundo turno das eleições. Foram para ele Collor e Lula. Todo mundo teve medo do Lula ganhar, “o Brasil vai cair no comunismo”, diziam os mais velhos. Naquele ano, por ironia, o que caía mesmo era o muro de Berlim.

Collor foi eleito. Tomou posse. Veio a Zélia, a “luta” contra a inflação, o confisco, o PC Farias e o impeachment. E todo mundo ficou triste de novo.

Itamar Franco era o vice do senhor Collor e assumia a presidência do Brasil. Mas a impressão que eu tinha era que ninguém sabia bem quem era aquele Itamar. Que colocou Fernando Henrique Cardoso no Ministério da Fazenda. Eu só sabia do Fernando Henrique é que ele era amigo do Covas, mas nessa época eu nem era mais Tucana, era adolescente. Tinha outras coisas com as quais me preocupar, mesmo que agora tivesse titulo de eleitor.

Eu mal havia me acostumado a pagar uma URV (unidade real de valor) por uma paçoca quando já havia chegado outra eleição. E Fernando Henrique foi eleito. Todo mundo ficou feliz porque o pior monstro de todos parecia estar agonizando: a inflação. O dinheiro era real. E a reeleição também. FHC foi real por oito longos anos… Foram bons, nada de novo aconteceu, mas tão longos que cansaram. Nessa época eu não só votava como também trabalhava nas eleições. Fui mesária, secretária, presidente. Estava vendo as tais das eleições de perto. E vi duas vezes Fernando Henrique, sempre com o Lula correndo atrás, fosse em cédula de papel, fosse em urna eletrônica.

Até que, um dia, chegou a vez dele. Finalmente. Anos e anos comendo poeira atrás dos seus adversários, e ele chegou lá. E pela primeira vez eu fique feliz. É que no passado, na verdade, eu só tinha visto os outros felizes, sem entender bem as razões da felicidade. Fiquei cheia de entusiasmo, de motivação, de patriotismo. Mas… Parecia carma.

Fiquei triste de novo. Estou triste. E um tanto catatônica. Triste porque a impressão que eu tenho é que ninguém sabe bem quem é esse José Alencar. Punir quem está errado, caçar todas as bruxas, perfeito. Eu só ainda não consegui ver – baseada nesses vinte anos de ‘vida política’ – quais as vantagens para nós de termos um presidente interrompido. Triste porque o Brasil é um país legal pra caramba. Catatônica porque parece nunca haver saída. E eu jamais poderia pensar que, em 2005, vinte anos depois das minhas primeiras memórias políticas, a ‘galerinha’ que estava do mesmo lado durante o movimento das “Diretas Já” se transformasse parte nessa elite política que faz de conta que combate o que está errado (quando ninguém sabe ao certo o que é errado) e a outra parte se transformasse em algoz, em causadora de todos os males. Há vinte anos atrás era fácil ser maniqueísta, todo mundo era diferente. Mas, e agora, que todo mundo é meio igual?

É como se o país inteiro ficasse esquizofrênico, cansado de sofrer de transtorno bipolar político. Eu sei que eu estou cansada. Paralisada, fazendo força para acreditar que isso é verdade, que estamos mesmo assistindo a embates políticos que muito levantam, mas que nada concluem. Sobram por quês e faltam porquês.

Talvez seja pedir demais, mas seria bom se essa ‘galerinha’ pensasse no Brasil antes de pensar no seu partido, aquela coisa que eu nem sabia bem o que era, pelo menos não até criar o meu, lá na chapa do grêmio do colégio quando, sem nem perceber, eu comecei a procurar ‘coisas erradas’ nos garotos de catorze anos que lideravam a chapa contrária, e que antes eu achava até legais. E essa história, esses meus vinte anos de memórias políticas, me fazem imaginar que talvez o nosso país padeça, ao mesmo tempo, pelo excesso de amor de alguns e pela escassez de poder de outros. Não consigo. Estou triste porque estou com a sensação de que o que pode mobilizar toda essa massa em torno da política hoje seja exatamente o que me deixa assim: a vontade de ver o circo pegar fogo, a dúvida, a incerteza e a sensação de que a nossa sina é essa, ficar sentado no sofá, em frente à TV, acompanhando sonhos escorrerem ralo abaixo. Tomara que dê tudo certo. Tomara mesmo.

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