CLÉU ARAÚJO
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Quando tudo passa

por: Cléo Araújo

19 JAN

2005

É uma sensação de estalo. Como se eu estivesse num estado de hipnose e alguém viesse estalar os dedos ao pé do meu ouvido.

Abro os olhos. Minhas pálpebras ainda estão pesadas, mas sinto – mesmo com olhos semicerrados – que a luz está diferente. Aos poucos eles vão se abrindo por completo e eu, de tanto tempo sem olhar, quase não reconheço o lugar onde estou.

Com um bocejo, como se despertando da hibernação, me espreguiço. Só nessa hora percebo o quanto estava cansada de dormir. Viro a cabeça para o lado onde tem uma janela e resolvo que é hora de me levantar. O relógio vinha despertando, despertando, despertando, mas ao invés de desligá-lo e colocar-me em pé, eu vinha insistindo em apertar o snooze para mais dez minutos de cegueira.

No percurso entre mim e a janela, sinto uma novidade. Só poderia sentir, já que caminho finalmente de olhos abertos depois de um longo período. Sinto uma novidade que vai do alívio ao engano; do que poderia ser ao que jamais teria sido. E sigo caminhando para olhar para o lado de fora.

Mais do que o novo, ao chegar em frente à janela, sinto o óbvio: parece que, finalmente, tudo passou. De repente uma clareza: “-será possível que estive em coma?” Não, eram só os olhos que estavam fechados. E a novidade de simplesmente não sentir nada é estranha. Lembrei-me da sensação. E nela me confortei. O não sentir acabava sendo, depois de ter os olhos abertos, o melhor e único remédio para um estado de torpor que já se alongava demais.

Pela janela enxergo, então, o real, o vivo, o presente, e não mais o que não estava ali e que eu me forçava a enxergar. Entendi que, de olhos fechados, é mais fácil ver alucinações. Entendi que tudo o que não está ali acaba sendo perfeito, quando na verdade se não está ali é porque o que menos há é perfeição.

“-Quanto engano, quanto engano.” Mas não posso mais sentir ódio pelo engano que cometi de mim pra mim mesma. Já basta o engano dissuadido, o engano no qual fui presa. Não posso culpar-me pelo auto-cárcere. E se não sou santa, o que me é permitido querer, agora que tudo passou? Basta-me ter aprendido algo novo? É suficiente contentar-me com a minha liberdade?

Basta sim. Para mim, basta. Afinal é num estalo, numa última lágrima e num primeiro olhar pela janela que tudo passa e que a gente fica com aquela enorme vontade de começar de novo.

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