CLÉU ARAÚJO
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Quanto tempo faz?

por: Cléo Araújo

28 NOV

2006

Há um minuto eu senti tanta saudade. Senti saudade de anteontem, de quando eu tinha dez anos, da última vez que eu mergulhei no mar.

Há vinte dias eu senti saudade de um momento sublime durante o seu acontecimento. Eu sabia da saudade que teria no exato minuto em que ele acontecia. Se eu fosse uma máquina filmadora, teria gravado aquele instante, para poder revivê-lo hoje à noite lá em casa, saboreando aquele rosé que eu não tive tempo de comprar.

Há uma semana eu era tão diferente. Teve um feriado e eu tive tempo. Há uma semana eu era um pouco diferente do que era há duas semanas, mas completamente diferente do que eu sou hoje. Eu sei que há um ano eu era totalmente diferente do que serei amanhã.

Há três dias eu estou com essa afta na língua por causa daquela fatia de abacaxi.

Há cinco meses eu não corto o cabelo.

Há uma década eu deveria estar longe, morando em outro lugar desse mundo.

Há uns quatro anos eu deveria ter tido meu primeiro filho, pelo menos é isso que dizem os médicos.

Agora – que é o tempo mais importante de todos os tempos – eu resolvi que não conto mais o tempo.

Se eu tenho trinta, catorze ou setenta e dois anos; se faz um século, um mês ou algumas horas que eu estou feliz; se faz um milênio, uma era ou uma encarnação que eu não preciso mais de ninguém para ser feliz; se faz um ano, um mês ou um minuto que eu comecei a precisar tanto de alguém me segurando em seus braços que meu peito chega a doer quando eles não estão com tempo para mim…

Não importa mais!

Desculpe, mas eu não tenho tempo para contar o tempo.

Nada é velho, nada é novo, é tudo só igual.

Do tempo mesmo eu só preciso de todo o tempo do mundo. Embora eu não suporte o tempo que não passa, o relógio que não anda, o silêncio, que ajuda a fazer o tempo parar.

Eu não quero perder tempo mais na minha vida, mas quero muito tempo perdido comigo.

Fico perdida no tempo naqueles dias em que tudo é tão bom que o tempo passa macio, mas tão macio que a gente quase não vê.

E desde ontem parece que já faz quase uma vida inteira que nada acontece.

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