CLÉU ARAÚJO
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Quem se encaixa no perfil?

por: Cléo Araújo

15 MAR

2005

Pessoas se conhecem todos os dias. Podemos conhecer alguém no semáforo, no supermercado, no posto de gasolina, no pedágio, na banca de revista, na fila da assistência técnica do celular e até num bar ou numa boate ainda que alguns incrédulos digam que não, que a balada não é o melhor enviroment para se encontrar ‘o alguém’ – eu, inclusive. A dificuldade, enfim, não parece ser ‘encontrar pessoas’, ainda mais em uma cidade como São Paulo, que às vezes nos força a ser otimistas. O desafio é conhecer alguém e se interessar por esse alguém. Principalmente se você está numa fase exigente. Quase chata.

É desafiador porque existe um grau de exigência instalado no seu subconsciente que vai um pouco além do racional, além do concreto e muito além de qualquer estereótipo que você tenha estabelecido como o ideal. Não se trata, portanto, de desistir de alguém porque ele é loiro e você gosta de morenos, ou porque ele é magrinho e você gosta de fofinhos. É mais do que isso. É mais, também, do que identificar nesse novo ‘conhecido’ gostos em comum (os dois gostam de jazz e não curtem frutos do mar, o que é o máximo, mas não o suficiente).

O fato de curtir ou não curtir um novo conhecido está relacionado com as pequenas coisas. São os detalhes, os movimentos sutis, as entrelinhas que pesam nesse momento. E o seu ponto de partida é sempre o pessimista: você parte do princípio de que ele – o novo alguém – é potencialmente a pessoa errada.

Fica, então, meio que na espera do primeiro passo em falso da pobre cobaia. Você tem certeza de que, a qualquer momento, a hecatombe acontecerá: basta um deslize, um micro deslize, para se comprovar que, mais uma vez, o percurso foi feito: 1. Você conheceu uma pessoa nova; 2. Você se sentiu cheia de sorte por isso; 3. Você detectou que o novo alguém não é alguém que lhe desperta interesse.

Ficar esperando a falha iminente é como prestar atenção nos barulhinhos que ouvimos quando estamos no avião: quanto mais atenção se presta, maiores as chances de se ouvir os barulhinhos. Quanto mais achamos que a pessoa cometerá um deslize que comprove a sua completa falta de conexão com a gente, maiores as chances delas acontecerem nos primeiros dez minutos de encontro.

É como uma fórmula matemática: requisitos básicos – defeitinhos imperdoáveis = pessoa certa para se marcar um segundo encontro. Esses requisitos e defeitos geralmente são muito peculiares, individuais e intransferíveis. E quanto mais sozinha uma pessoa se sente, mais defeitos ela começa a enxergar nos outros e mais requisitos ela começa a achar essenciais para topar um segundo encontro.

Os pontos que você estabelece para a pessoa contemplar todos os requisitos por você exigidos faria qualquer galã de cinema graduado em fissão nuclear em Harvard reprovar. Ninguém, que não você mesma, vai entender que você simplesmente não suporta um novo date que peça um suco de frutas no restaurante. Ninguém vai entender se você despachar um cara porque ele não é muito bom de ortografia. Afinal, poucas são as pessoas que se frustram ao receber um email sem vírgulas.

E com tudo isso, cheia de pré-requisitos e defeitos – pois você também os tem – com o tempo acaba nascendo uma nova preocupação: se os homens do mundo começarem a trabalhar na mesma lógica que você, talvez seu tempo na solidão seja maior do que você pensava. Ou talvez eles já trabalhem, e por isso você está sozinha: você não tem os pré-requisitos que eles procuram. Que bando de gente exigente!

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