CLÉU ARAÚJO
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Resquícios de alguém

por: Cléo Araújo

01 ABR

2005

Alguém se foi da sua vida. Partiu, saiu fora, picou a mula, zarpou, decolou. E você deixou. Achou melhor. Doeu do mesmo jeito, mas você achou melhor.

Fechou a porta atrás de você, rodou o trinco e se debulhou completamente. “Credo, o que é isso?”. Fazia tempo que você não chorava tanto e achou absurda a quantidade de água que seus olhos são capazes de produzir. E a altura dos soluços que seu esôfago é capaz de emanar. O choro, apesar de doído, a fez sentir como se desopilasse seu fígado. Desopilação essa acompanhada de um aperto no coração que você jurava poder arrancar dali se quisesse. Mas você não podia. Não podia. Simplesmente não podia.

E por que não? Porque você está cercada de inimigos! Sua casa não é mais sua! Que ódio, mas até seu sofá a faz pensar nele. E, oras bolas, o sofá é seu! Você não tem pra onde fugir dentro da sua própria casa. Tudo que é seu a faz lembrar dele. Você se sente uma vítima de seus próprios objetos. Você fecha os seus olhos, respira fundo e grita para os seus móveis: “Parem com isso já!”. Abre os olhos devagar e procura adotar uma perspectiva diferente da sua casa, sei lá, acendendo lâmpadas que não acendia e apagando as que não apagava. Olhos novos. Olhos de quem precisa acreditar que deixá-lo ir foi de fato a melhor opção que você poderia ter tomado.

Já um pouco mais tranqüila, com menos raiva do seu sofá, você resolve encarar os medos. Vai para o quarto. E antes de começar uma discussão com a sua cama, o que poderia levar horas, se tranca no banheiro. O banheiro não traz tantas memórias assim. Você lava o seu rosto, se assusta com o tamanho dos seus olhos, e quando acha que está melhorando “Nããããããão!!!!!!!!!!!!!”. A maldita escova de dentes! Um golpe tão forte, tão forte, que você se sente indefesa, fraca demais para alcançá-la e jogá-la fora. No lixo. Exatamente o lugar onde se encontra seu coração.

Sai correndo do quarto, tropeça e sente de novo o ímpeto de fugir de você mesma. Das suas coisas, que estão recheadas com lembranças dele. “Quanta injustiça!”, você pensa.

Volta pra sala. E olha pro telefone. Que não, não vai tocar, e você sabe disso. Senta-se no (que ódio, maldito) sofá. Que não adianta: está, sim, com o cheirinho dele e não é coisa da sua cabeça. Resolve então que talvez seja hora de mandar forrá-lo, definitivamente. E isso a faz lembrar que você tinham ido juntos numa loja de móveis para escolher um sofá novo e “Nããããão!!!!”, de novo. “Saia, saia da minha cabeça, da minha casa, saia já, deixe meu sofá em paz!”

Lágrimas de novo. Lágrimas sobre uma caixa de fotos; lágrimas sobre uma camisa que ficou no seu armário; lágrimas sobre velas que se queimaram até a metade; sobre seu travesseiro; sobre seus frascos de hidratante; sobre seu vaso de manjericão.

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