CLÉU ARAÚJO
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Revival

por: Cléo Araújo

08 JUL

2009

Trocaram olhares no xerox do DA.

Ele copiando uma apostila de Direito Civil II.

Ela afixando um pôster para divulgação da “XXIII Festa dos Veteranos – Turma de1998”.

Ele de camiseta de banda esgarçada, calça jeans surrada e tênis de veludo.

Ela – embora estivesse afixando um pôster para divulgação da “XXIII Festa dos Veteranos – Turma de 1998” - de maquiagem, salto e pastinha séria, estilo futura advogada.

Estudavam na mesma faculdade, mas em anos diferentes. Ela no último, ele no terceiro.

Ela já tinha aulas de Direito Internacional.

Ele fazia DP de Teoria Geral do Estado.

Ele andava de ônibus. Quase Eduardo. Ela de Fiat Uno Zerinho. Praticamente Mônica.

Pois trocaram olhares no xerox.

E depois na cantina.

E depois no boteco da frente da faculdade, quando se cruzaram na porta do banheiro. Que era unissex.

Aí, um amigo falou dela pra ele daqui. Uma amiga falou dele pra ela de cá.

Já se sabiam então. Fácil assim. Mais fácil do que colar na prova de Direito do Trabalho.

Para se quererem, não precisavam de mais nada.

Era só esperar o dia da chopada.

É que além do chopp, a chopada tinha também um show do Creedence Clearwater Revival Cover. E foi ali, no meio da galera, que eles conversaram e tomaram uns tragos. E foi no refrão de “Proud Mary” que ele colocou um Trident de canela na boca. E que eles se beijaram pela primeira vez.

Aí resolveram que iam se beijar também no dia seguinte ao da chopada.

E no dia seguinte ao dia seguinte.

E naquela semana todinha.

E na outra.

Aí ele começou a se afastar dos amigos.

E ela começou a carregar seu “menino” para as festas do último ano.

Não se desgrudavam um segundo sequer e enforcavam todas as aulas que existiam.

Mas foi depois da “XXIII Festa dos Veteranos – Turma de 1998”, da qual saíram quando o sol já ameaçava nascer, que acabaram dormindo juntos. Foi na república de umas amigas dela. Verdade que já era quase dia, verdade que a noite tinha sido longa, verdade que eles tinham bebido todas as vodkas com soda e todas as cervejas que podiam, verdade que tinham fumado quase um maço de cigarro cada um, verdade que queriam dormir… Mas “Dormir? Pra quê? Deixa para dormir depois que a gente se formar e quando, aí sim, a gente não tiver mais nada o que fazer dessa vida!”

E foi ali que ficaram até meio dia, ele de cueca e ela na sua camiseta de banda esgarçada, ouvindo “10,000 Maniacs”, comendo bombom de uma caixa de especialidades da Nestlé, pensando nos nomes que colocariam nos seus filhos, sem se desgrudar um segundo sequer e, como de hábito, enforcando todas as aulas que existiam.

Dois bimestres, duas provas de Processo Penal, um exame e dois recursos para pedido de abono de faltas depois, já não estavam mais juntos.

Ele voltou para a sua turma de amigos, que continuou curtindo umas trips malucas nos cantos escuros do estacionamento.

Ela começou a estudar para o exame da OAB.

Trocaram olhares na semana passada num escritório chique na Avenida Faria Lima.

Ele dentro de uma sala de reunião envidraçada.

Ela na sua mesa, do lado de lá do vidro, fingindo ler uma publicação.

Ela não tinha certeza se ele era ele.

Ele tinha certeza absoluta de que ela era ela.

Pois trocaram olhares.

E depois?

Voltaram para casa. Cada um para sua.

Mil coisas na cabeça.

Ele colocou um CD do Creedance para tocar. Acendeu um cigarro, pegou uma cerveja e apagou as luzes. Queria curtir umas trips no escuro. Queria desafinar norepeat junto com John Fogerty. “Rolling, rolling, rolling on the river”. Queria curtir a lembrança de tudo que tinha acontecido lá atrás. Ficou nostálgico. Foi dormir sentindo saudades daqueles tempos que não voltam mais.

Ela colocou um CD do “10,000 Maniacs”. Jogou a pastinha longe, desceu do salto e tirou a maquiagem. Preparou uma dose de vodka com soda e comeu uma caixa inteira de Especialidades da Nestlé. Chorou no repeat junto com Natalie Merchand. “More than this… you know there’s nothing…”. Sentiu um vazio. Um oco por todas as coisas que poderiam ter sido. Ficou triste. Foi dormir se sentindo só, pois como se fosse a única capaz de sentir saudades de tempos que nunca vieram. A única capaz de sentir saudades pelos tempos que jamais virão.

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