CLÉU ARAÚJO
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Rumo ao hexa

por: Cléo Araújo

02 JUL

2014

Eu chego trazendo 12 garrafinhas de Stella Artois, mas como o pessoal tá cantando o hino com a mão no peito e os olhos cheio de lágrima, circulo por trás para não atrapalhar ninguém. Vou ajeitando as meninas no freezer enquanto acabo eu mesma me emocionando com aquela brasilianidade toda. Coisa linda esse mundaréu de gente cantando o hino à capela, não? Se a moda pegar, vai ser um espetáculo. Arrepia os pelinhos da nuca. Eu amo o Brasil, você não? Puta país do caralho.

O jogo começa e os cachorros se incomodam. Quando não é um rojão, é um putaqueopariu mais nervoso vomitado por algum membro mais tenso da confraria no momento em que um cruzamento passa batido pela cabeça de um jogador brasileiro dentro da área.

Eu sigo tomando minha Stella, a 2ª delas.

A audiência segue tensa conforme o jogo avança num empate incômodo. Tem os que olham sem piscar e os que circulam esbravejando falando com Deus, suponho, sem prestar atenção na TV. Um sugere mudar de canal, quem foi que deu a ideia de assistir esse jogo com narração do Galvão, bicho, pelamor, tira daí, puta azar.

A coisa piora e o jogo vai para prorrogação. São os 30 minutos mais horríveis da vida de qualquer brasileiro vivo, de 1 dia a 112 anos de idade.

Cada bola que cruza o meio de campo provoca cólicas, enjoos, é a vida por um fio.

Na minha 3ª Stella, imagino o mundo sem Copa. Estaria tudo uma chatice sem fim, a vida sem cor, o Brasil sem amor. Nesse momento, alguém resolve puxar o tema musical da copa para ver se a energia muda e a coisa dá uma animada. J Lo, Pitt Bull, brasilianidade.

Já nos 20 minutos da prorrogação, nada aconteceu e todo mundo começa a mentalizar a fuça do nosso goleiro, a partir de agora o cara mais amado ou mais odiado do Oiapoque ao Chuí. Vêm aí eles, os pênaltis. Não sabemos se os odiamos (culpa do Zico em 1986) ou se o amamos (culpa do Baggio em 1994). Fato é que agora dá para cortar o ar com uma faca de manteiga, de tão denso, grosso. Alguém quer uma Stella?

As cobranças começam. Nosso goleiro, no gol. O adversário chuta e o goleiro defende. Um grito equivalente em energia à uma explosão nuclear ensurdece até quem já era surdo. Pessoas pulam e se abraçam feito carrinhos de bate-bate, tamanho o descontrole. Nunca vi essa gente tão feliz. Homens que não se conhecem se beijam. Rivais na vida pulam de mãos dadas. Incontinentes mijam nas calças de tanto furor. Puta país do caralho. E alguém me traz outra Stella, por favor.

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