CLÉU ARAÚJO
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Salve Pedro!

por: Cléo Araújo

09 NOV

2009

Quem cuidava da segurança e bem estar das residências, crianças, bicicletas, hibiscos e cachorros do bairro nos idos dos anos 80 era Seu Pedro.


Imagino que tivesse não mais do que uns 65 anos; para mim, o andar vagaroso, a voz de vovô e a barbicha branca davam a ele no mínimo uns 112. Acho que ninguém tinha coragem de fazer alguma coisa que obrigasse aquele simpático senhorzinho de 112 anos a correr ladeira acima atrás de qualquer coisa. Crimes contra Seu Pedro definitivamente não compensavam.


Além da vigília constante, a ele eram delegadas tarefas outras, coisas que nada tinham a ver com a sua função de zelar pelo patrimônio dos moradores do Santa Tereza. Seu Pedro comprava pãozinho, passeava com cachorro e buscava galão de água mineral. A Seu Pedro eram confiadas as chaves de todas as portas da frente. Era ele quem se encarregava de aguar as plantas e acender a luz de fora quando uma família viajava. E lá ia Seu Pedro, com seu pesado molho de chave, sua marmitinha de alumínio amassada, sua garrafa térmica xadrez de preto e vermelho, sua moringa de barro, uma perninha meio manca e um séquito de cachorros de rua que o acompanhavam feito renas de Papai Noel.


Seu Pedro curtia uma fresca no seu banquinho de madeira meio torto quando ardia o sol do meio dia, justamente o horário quando chegávamos da escola. Minha irmã, ainda titiquinha e, convenhamos, razoavelmente influenciada pela formação católica, acreditava que aquele homenzinho que buscava a bola no quintal do vizinho era ninguém mais, ninguém menos do que ele: “São” Pedro. O próprio. O Santo. Não era de se duvidar que o bairro estivesse bem guardado nas mãos Dele, tipo um terceiro na hierarquia do Céu, digamos assim.


Ninguém tinha coragem de ralhar com Seu Pedro. Nem coragem nem razão. Lembro-me dele varrendo calçada, tirando folha seca da boca do bueiro e andando sob a chuva com sua capa de plástico preta até se proteger em alguma garagem. Sei que não havia muros pichados. Não havia lixo na calçada. Nem cachorro perdido.


Semana passada precisamos contratar uma empresa de segurança para proteger a casa onde estamos montando um negócio aqui na cidade. Acabamos fechando com a SSB Safe – Segurança Patrimonial, Residencial e Monitoramento Ltda. E o fizemos em caráter de urgência, já que o prédio, ainda em reforma e completamente vazio, foi arrombado. Segundo a SSB Safe precisávamos de um pacote top: uma CPU com placa para acompanhamento remoto via satélite, dois faróis de presença, quatro câmeras de infravermelho distribuídas em corners estratégicos, sistema de alarme integrado por sensores de movimento (uma formiga de asa pode dispará-lo) e botões de pânico ligados diretamente com a polícia, o bombeiro e, quiçá, o Super Mouse, caso estejamos dispostas a desembolsar o valor necessário para tal… Ah, claro, e o monitoramento 24h, uma central telefônica que um segundo após o disparo do alarme entra em contato contigo para que você diga sua senha de contrato garantindo assim que não há um assaltante com uma granada em punho prestes a explodir tudo se você não passar imediatamente para ele seu mouse pad de gel e sua caneca “I Love NY”. E mesmo assim, mesmo com toda essa parafernália, nada garante que numa manhã qualquer não haja um pintão cor de rosa fosforescente pichado no muro da frente. Isso sem contar que a SSB Safe – Segurança Patrimonial, Residencial e Monitoramento Ltda já deixou bem claro que não busca pãozinho quente nem leva minha cachorra para passear.


O jeito é pagar pelo serviço e apelar pra Eles. Esteja Seu Pedro onde estiver, estou certa de que troca uma ideia com seu xará, o Santo, enquanto masca um capinzinho e enxuga o suor por debaixo do chapéu de palha. Não custa nada acreditar que com a alta tecnologia da SSB Safe na linha de frente e uma dupla como Essa dando cobertura (e, convenhamos, digo isso influenciada não só pela formação católica, mas pela total sensação de estar rendida) residências, crianças, bicicletas, hibiscos, cachorros e novos empreendimentos sigam protegidos.

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