CLÉU ARAÚJO
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Se essa casa fosse minha

por: Cléo Araújo

19 MAR

2008

Passei em frente da casa onde outras pessoas moravam.

E um outro cachorro latiu no portão.

Era um latido ardido. De um cachorro que nós nunca teríamos.

As hastes de bambu haviam sido desmatadas da encosta do muro.

Plantaram ali coroa de cristo.

Justo essa planta, que minha mãe sempre odiou profundamente.

Então, uma coisa estranha tomou conta de mim.

Um apego.

Uma vontade de invadir.

Agachei na calçada, determinada a espiar por debaixo do portão da cozinha, num ato aparentemente de invasão da propriedade alheia…

Que não era alheia coisa nenhuma!

Pelo menos não para mim.

Lá dentro, pela fresta, outros vasos, outras plantas, outros cheiros, outros seres humanos e uma gaiola com um pobre pássaro. Outra história…

Atravessei a rua, precisava me afastar para enxergar dentro do jardim.

O guardinha me reconheceu, não demonstrou me querer fora dali. Nem fez menção de pegar seu apito. Me deixou quieta, vasculhando o que era meu. Certamente me achava melhor moradora do que aquele pessoal barulhento que ali promovia um jantar com músicas ruins e prendia passarinhos em gaiolas.

Eu me senti mal porque senti ódio deles.

Luzes que nós não acendíamos nunca brilhavam na sala onde sofás que não combinavam com a ferragem das portas se espalhavam.

Cortinas, outrora inexistentes, balançavam com o vento, que não mais fazia entrar pelas janelas dos quartos aquele cheirinho delicioso de jasmim – de onde viria, aliás, se os desmatadores tiraram a pobre árvore de lá?

Dei a volta na esquina e fui para um ponto onde finalmente conseguia avistar a sacada do meu antigo quarto.

Tinha um garoto de uns 18 anos, pendurado na grade, falando com alguém ao celular.

Falava alto, combinava um programa qualquer, num boteco aonde eu certamente não iria só de raiva dele. A noite era quente e o céu estava limpo, mas ele parecia não se importar com a infinidade de estrelas que pairava sobre sua cabeça. Menino tonto. Daquele ponto, eu já havia contado pelo menos umas três estrelas cadentes numa única noite.

Provavelmente, depois de desligar o telefone, ele tomaria uma ducha no meu banheiro. Ah, e como era boa aquela ducha… Ele não merecia aquela ducha.

E foi aí que um sufoco no coração me fez chorar.

Eu era aquela boba saudosa presa às coisas que já foram, presa às duchas alheias…

Esse apego, ah, esse apego. Será que todo mundo que morou tem, todo mundo que amou tem, todo mundo que viveu tem?

Estava em meio a essa tentativa de auto-consolo quando alguém lá de dentro abriu o portão da garagem.

Não havia mais grama.

Aparelhos de ginástica se exibiam onde antes existia uma estufa de orquídeas.

A piscina estava meio esverdeada.

Um gnomo enfeitava o antigo canteiro de ervas.

Aí, o desapego não venceu a fúria.

Então enfiei o dedo com toda força na campainha.

E saí correndo.

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