CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Seja eu

por: Cléo Araújo

11 FEV

2008

O mais insólito de toda essa história foi esse seu jeito de me entender como mulher.

Eu não conhecia isso. Nunca havia sido convidada por ninguém a me mostrar assim. E como nunca fui de me meter nas coisas sem convite, fiquei na minha.

Uma das “minhas” era essa: pagar pau para todo mundo mais ou menos complicado, inseguro, receoso, titubeante, trêmulo e vacilante que me aparecesse na frente – e que de preferência fizesse questão de jamais deixar claro que quisesse ou que não quisesse ficar comigo. Antes de você eu vivia daqueles que queriam ser ninados por um tempo. Mas só por um tempo, veja bem. Ah, e eu quis pegá-los a todos no colo, quis abraçá-los, cobri-los de beijos e, por que não, amamentá-los, até. E aí eu obcecava, me apaixonava, queria ficar com eles para sempre, só com eles e nada mais importava. Amor de mãe. Um dia eles já estavam prontos para partir, feito filhos que eram. E invariavelmente foram embora, curiosamente sem deixar saudade.

Eu fui uma mãe estranha dessas tentativas de amor. Mas finalmente, com você, eu não precisei ninar mais ninguém. Com você eu consegui sair dos dezesseis anos. Foi bom porque há pelo menos uns quinze eu tentava essa façanha, sempre tão sem sucesso, coitada. Mas isso era porque a gente ainda não se conhecia muito bem. Não sabíamos como estávamos perdendo tempo nos mantendo à distância, assim, com todo aquele precipício entre nós. De repente você foi chegando, me conquistando aos poucos, e você nem imagina como foi divertido ver alguém comigo que agia como adulto. Você ali, não expondo seus traumas, não usando nenhum deles como defesa para seus comportamentos bipolares (você não tinha comportamentos bipolares), não se alienando do mundo quando se percebia no meio de uma grande paixão, você era a perfeição.

Seu “sim” significava sim. Seu “não”, não. Saborear toda aquela objetividade foi para mim feito um primeiro beijo, feito um salto de pára-quedas, feito uma colherada de tacacá, de tão inusitado aquilo de não precisar te ler nas entrelinhas.

Com você eu não tinha aquelas palpitações da ausência, aquela angústia de achar que a qualquer momento a felicidade começaria a desaparecer, a ficar distante até sumir de vez. Sua companhia me ajudou a perceber que eu era completa em mim mesma mesmo quando tudo em volta parecia vazio.

Depois de você eu entendi que aquela coisa que todo mundo, todo o planeta e até alguns seres extraterrestres da ficção pareciam ter, menos eu – um amor adulto, um amor de fazer supermercado e planejar o carnaval de daqui dois anos, um amor de sossegar na cama, um amor de amanhã de manhã – era uma coisa boa, sim. E você me confirmou que a gente poderia querer isso, e poderia falar que era isso que a gente queria sem medo de afugentar quem quer que fosse simplesmente por estar planejando o futuro.

Ver com seus olhos meio míopes me sossegou porque foi assim que a minha hipermetropia começou a regredir. Coisas pequenas não viravam mais monstros em minha cabeça. Você me equalizou.

Que coisa diferente aquilo de você relaxar, de não ficar supondo o que eu estava querendo, de não me deixar interpretar situações óbvias, diretas e retas, de não achar que tudo que saía da minha boca era cobrança, exigência ou reclamação de uma louca. Até porque, com você, essas sandices – quando de fato o eram – foram entrando em pleno processo de extinção dentro de mim. Sumiram feito pandas marrom-e-branco e ararajubas.

Você me apresentou a mim mesma, me aproximou de mim, me ajudou a ser uma pessoa mais equilibrada, mais simples, mais bem humorada e mais em paz até com o farol, que pode, sim, fechar justamente na minha vez de cruzar a avenida, sem que isso represente uma perseguição qualquer do acaso.

Você promoveu milagres em mim mesmo quando sabia que eu não acreditava neles.

Você…

Uma mulher madura que nasceu há pouco tempo e com uma experiência de vida que não sei da onde vem.

Você, que vivia aqui, escondidinha dentro de mim e que, de repente, chegou.

Você, essa outra eu, você que eu quero que fique, quero que more aqui em mim.

Tome conta de mim.

Seja eu.

Para sempre.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.