CLÉU ARAÚJO
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Seleta coletiva

por: Cléo Araújo

17 JUN

2010

Não tem nada mais legal do que querer ser uma pessoa melhor.

Pessoas melhores constróem um mundo melhor. E um mundo melhor gerará pessoas melhores, e assim ninguém mais teria de fazer esforço para ser melhor porque, num mundo melhor, pessoas piores seriam a exceção. E, no futuro longínquo, pessoas melhores seriam, portanto, apenas pessoas.

Uma pilha, por exemplo.

Não tem nada mais incômodo do que uma pilha.

Em casa eu tenho umas catorze enroladas num saquinho.

Aliás, um saquinho. Não tem nada mais incômodo do que um saquinho. A não ser um que contenha catorze pilhas dentro de si.

Bom, sei que as pilhas estão lá. A maioria é AAA. Estavam no controle remoto da TV, no mouse, no aparelhinho de fazer espuma do leite, enfim, sabe-se Deus desde quando. Morreram, como tudo. E foram parar no saquinho.

Todo dia eu acordo, escovo os dentes (com a torneira fechada), tomo um banho (lá em casa tem aquecimento solar – juro), me troco, penteio as madeixas, tomo um gole de café e penso: “preciso levar o saquinho e as pilhas para o ponto de recolhimento de pilhas do supermercado”. E quando me vejo a caminho do trabalho, já esqueci de me lembrar delas.

O saquinho só vai aumentado, a cada pilha maldita que vai morar dentro dele. E assim como elas, há um universo infinito de cartuchos vazios, celulares mudos, vidros deprimentes de óleo de cozinha e jornais de ontem vivendo num limbo, esperando por um destino incerto que eu, uma espécie de antideusa doméstica dos objetos tóxicos e poluentes do meu próprio meu lar, preciso determinar.

Não é sonhar com um mundo melhor, o que dá trabalho. Não é a coleta seletiva que dá trabalho. Quem dá trabalho, trabalho mesmo, é o superego. E esse nem para reciclar dá.

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