CLÉU ARAÚJO
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Self safari

por: Cléo Araújo

10 MAR

2009

Ela está tentando fugir.

Mas é feito uma hipopótoma alaranjada com soluço que ela se move.

Mal fadadas fugas…

Quer se livrar, quer se livrar de tudo.

Quer viver a sua vida e fazer as suas coisas.

Mas as pessoas a encontram e chamam por ela.

E aí, é assim que ela se mostra.

Uma ovelhinha meiga que tudo pode. Homicida em potencial.

De repente, acha um esconderijo. Ah, vai ficar bem quieta. Ali ela pode ser.

Mas, lá vem um. Lá vem um tirar o seu sossego. Lá vem um nomear uma tarefa enfadonha, que qualquer camarão trainee poderia fazer no seu lugar.

E ela não aguenta mais do mesmo.

Não aguenta mais um chavão sequer repetido na sua orelha. Nem as pessoas que gritam. Nem as falsas esperanças e o jeito que os outros parecem querer sempre cozinhá-la no banho maria.

Não suporta mais seus próprios surtos de hipocondria e ansiedade e suporta menos ainda os ataques de euforia bigbrotherianos dos outros.

“Ele me ama, ela me ama, sabe, algumas pessoas me amam, sim, ai, quanta alegria, u-ruuuuu.” Ela deseja que a próxima pessoa que vier dizer isso para ela morra engasgada com o próprio cuspe.

E assim que ela se comporta.

Uma coruja velhinha. Bicho cruel.

Ela não consegue mais viver nessa sociedade que alaga, nessa sociedade das frases no MSN e dos textos do Jabor que não são do Jabor.

E ela odeia. Odeia bunda grande, senhas e hotéis que não aceitam cachorro.

Odeia as mulheres de Manoel Carlos. Odeia falta de amor próprio. Aliás, isso ela odeia acima de tudo.

E por isso ela se esconde.

Se esconde dos escravos e escravas de todas as coisas.

Ah, as falsas detentoras de auto-estima, as pessoas que não suportam a própria companhia, os seres que preferem um carinho falso na cabeça a carinho nenhum.

E é assim que ela se sente.

Uma viralata sarnenta. Que se vira melhor do que qualquer lhasa apso que faz chapinha na Pet Shop.

Mas quem é ela para achar tanta coisa?

Ela não é ninguém.

É hiena tentando segurar a risada.

Ainda assim, ali escondida dos guardas que vasculham a área com seus holofotes, ela pensa em tudo que já fez para tentar escapar. Ela tentou, coitada, ela bem que tentou escorregar, sair de fininho, se fazer de muda, cega, surda, burra, alienada, surtada, afogada, mal-amada. Mas não adiantou. Uma demanda, um chamado e ela tinha que correr.

Era assim, feito uma burra de carga acéfala que ela se sentia.

“Deixem-me quieta, me deixem aqui, me deixem em paz, me esqueçam!”

Escondida, ela fecha os olhos e imagina uma coreografia afro, enérgica e ritmada, do tipo que acompanha tambores e evolui em movimentos fortes.

Braços ao ar e pisadas marcadas no chão.

E aí, é assim que ela se vê.

Indivíduo sem tribo.

Fazendo barulho para ninguém ouvir.

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