CLÉU ARAÚJO
Crônicas Contos Aforismos Fatos Invenções

Sem segredos

por: Cléo Araújo

31 JAN

2008

Tenho uma meia sete-oitavos cor de algodão doce.

Mas isso é segredo.

Gosto de Eros Ramazzotti, ouço alto enquanto tomo banho. Mas isso? Pssss… É segredo.

Às vezes eu como direto da panela… Por favor, boca de túmulo!

Outro dia chorei assistindo Moulin Rouge.

Se eu souber que alguém comentou isso por aí, eu nego.

Não leio emails longos.

Às vezes, falo que tenho 1,62.

Não sou loira.

Já pensei em fazer uma tatuagem.

Filtro ligações no identificador de chamadas.

Mordi a hóstia na primeira comunhão.

Acho que bebê recém nascido não deve andar de avião. Pelo menos não no meu avião.

Queria me chamar Candice quando era criança.

Não sou esotérica, nem religiosa, nem acredito em coisas que não vejo. Confio mais nos astros do céu do que naqueles desenhados nos mapas.

Acho ridículo ficar sofrendo por amor, mas muito ridículo mesmo. Todo aquele choro, toda aquela dor exibida para o mundo, péssimo, além de cafona. E por isso já jurei para mim mesma que se meu peito doer por amor de novo vai doer calado, trancado no banheiro, até passar o ataque histérico e tudo voltar ao normal.

Dou risada por dentro quando ouço alguém falar uma bobagem descabida, sempre me acho incapaz de dizer tal asneira. Mas isso é porque quando se trata de achar o que eu acho, me acho o máximo. Mas, ninguém precisa saber disso, né? Ficaria mal pra mim.

Odeio gente que se acha dona da verdade, esse tipinho que tem certeza de que o bairro onde mora é o melhor lugar do mundo, por exemplo. Essas pessoas que não compreendem como os outros podem ser felizes morando no centro, no Tremembé, em Hortolândia ou em Johanesburg não têm o meu respeito. Mas, como é segredo, elas não sabem disso e a gente se dá bem.

Adoro sentir saudade de seja lá o que for. E como disse um sábio amigo, não abriria mão de nenhuma delas por nada. São saudades minhas. Ao extremo, é a soma delas que faz de mim eu. Sinto saudade de comprar material escolar, de encapar os cadernos com o plástico daquela série, de escolher um estojo novo e uma borracha cheirosa. Sinto saudade até do cheirinho da escola (aquela mistura de pão doce e livro novo). Sinto saudade das placas amarelas nos carros (aquelas que só tinham duas letras), da marca Studio Line (esculpa seus cabelos à sua moda) e de nata no leite. E olha que eu nem gostava dela.

Sou uma nostálgica incurável. Adoro o Indiana Jones, o Dr. Emett Brown, a Mônica e o Cebolinha, o New Kids e o Duran Duran.

Há momentos em que fico lembrando de coisas com uma dor no peito… Videocassete e bomba de encher pneu de bicicleta, por exemplo. Quase choro.

Não quero casar na igreja. E já sonhei sim que tinha um bebê. Lindo, gordinho e risonho. Não, não era de ninguém conhecido, e isso no sonho era zero importante.

Não gosto de ouvir Maria Rita. Aliás, não é muito fácil me agradar com música brasileira.

Fazer o quê? É a pura verdade, meu amigo… A pura verdade.

Sou essa boazinha cheia de maldades. Vista como boa por quem acha que minhas maldades são graças; como ruim para quem acha que minha bondade é lenda.

Amo algumas coisas e algumas pessoas como se fossem vitais para minha existência. Abomino outras como se fossem uma espécie de pereba crônica da qual não se livra nem com uma reza das braba.

Eu gosto de cheiro de cachorro, de pêssego e de outono. Eu não gosto de bunda grande, assinatura eletrônica e frases no MSN. Isso faz de mim uma santa? Ou uma demonia?

Eu gosto de piscina, de alho e do Ben Stiler. Eu não gosto de J. Quest, carnaval e textos do Jabor que não são do Jabor. Isso faz de mim uma pessoa amarga ou uma pessoa de bom gosto?

Eu gosto de Fiona Apple, picanha e detergente de coco. Não gosto de gafanhoto, de “balada” e de acordar tarde. Por isso eu sou intolerante ou sincera?

Prefiro email à conversa por telefone, risoto de bacalhau a temaki, Paris a Amsterdam, carro a avião. Então eu sou atrasada ou melancólica?

Odeio bom humor falsificado. Prefiro um nego bravo e mal humorado a um sentimental sem pelo no peito.

Não costumo dizer nunca. Sou cabeça dura e orgulhosa, mas mudo facilmente de idéia se convencida do contrário por alguém ou pelo meio.

Prefiro cachorro a gato; campo à praia; loiro a moreno; inteligência a emprego bem remunerado. Comédia a terror; amor à paixão; azeitona preta a alcaparra. Medicina à engenharia; Edward Norton a Ewan McGregor; quiabo a jiló; atlântico a pacífico.

Entre dançar e cantar, fico com a segunda opção.

Entre o céu e o mar, fico com a montanha.

Entre o silêncio e a gritaria, escolho simplesmente estar só.

Entre o sim e o não, a verdade, por favor.

E nada disso interessa a absolutamente ninguém. Não interessa sequer a mim mesma que já sei de tudo que sei e que sou.

Minhas maldades e tiranias não vão fazer do mundo um lugar mais sombrio.

Minhas verdades não fazem de mim uma Madre Tereza.

Por isso, guardo tudo em segredo.

É coisa minha.

Não interessa a ninguém.

Deixe seu Comentário

Aviso: A moderação de comentários está habilitada e pode atrasar seu comentário. Não há necessidade de reenviar seu comentário.