CLÉU ARAÚJO
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Sexo frágil coisa nenhuma!

por: Cléo Araújo

02 OUT

2008

Será que minha tataravó era uma mulher frágil?
Pelo que relatam as fontes familiares, Vitória – Nona, para os íntimos –italiana do Veneto, não tinha nada de frágil, não.
Veio para o Brasil num navio com uns seis filhos pela mão. Aliás, veio sem o marido, que só aportou por aqui tempos depois. Trabalhou em fazenda, carpiu, matou frango, sangrou porco, fez sabão… Não, definitivamente minha tataravó não era uma mulher frágil.
Será que o mito da fragilidade é coisa então ainda anterior ao início do século XIX? Coisa da Idade Média? Feudalismo? Brasil Colônia? Hum… Os livros de história, pelo que me lembro, contam que nós, pobres seres sem cromossomo Y, sofremos todos os tipos de humilhações nesses períodos históricos e mesmo assim mantivemos a cabeça erguida, mesmo com muita gente pisando nas pobres e tratando-as como coisa. Ora era o pai, ora o marido, ora a igreja e ora todo mundo junto. De vez em quando, as dúvidas sobre ela eram resolvidas com uma fogueira em praça pública. Ou seja, chance nenhuma de fragilidade.
Mas então, quando é que essa fama pegou de verdade? Década de 1960? 1950?
Não sei…  Difícil pesquisa.
Agora, fato é que, se ainda existe alguma mulher frágil caminhando sobre a terra, ou ela está camuflada ou em processo de extinção. Eu, pelo menos, não conheço nenhuma. Conheço algumas que se fazem de frágil para manipular uma coisinha aqui, conseguir outra coisinha acolá, mas frágil, frágil mesmo, com “F” maiúsculo, eu nunca vi.
Conheço mulher chorona, mulher exagerada, mulher enfática, mulher briguenta, mulher mandona, mulher insegura, mulher orgulhosa, mulher exigente, mulher chata, mulher carente, mulher dada, mulher desesperada, conheço até mulher calma… Mas frágil? Tsc, tsc, tsc.
Já os moços parecem estar aproveitando (provocando?) esse movimento, e ensaiam uma invasão paulatina de áreas de antiga e exclusiva propriedade feminina (ainda que miticamente falando, elas eram nossas). Falo de algo intrínseco, não relacionado à cosmética ou à moda. Falo de personalidade. Os rapazes estão assumindo que assistem novela. Eles curtem as comédias românticas, refletem, sentem, ressentem e têm se magoado muito mais facilmente do que outrora. Os rapazes, em outras palavras, estão se mostrando extremamente fragilizados.
O caso aqui é que homem não tem o hormônio criador de todos os males para usar como desculpa. Não tem TPM. Não tem nem M. Não tem útero. Nem ovários. Tem testosterona. Braço forte. Pelo no peito. Balls.
Mas mesmo assim, meeeesmo assim, eles estão (talvez involuntariamente, verdade seja dita) nos destituindo de nossos (pseudo) postos de princesas de vidro. Vêm esboçando traços de sentimentalismo e de emaranhamento emocional dignos de moçoilas castas.
Eles estão chorando sem motivo, já viu? Estão inseguros, receosos, cheio de dúvidas, trêmulos, vacilantes. E o que é pior: isso acaba por despertar o (novo?) lado forte da mulher. Porque ela quer pegá-los a todos no colo, abraçá-los, cobri-los de beijos e, por que não, amamentá-los até. E aí elas se apaixonam pelos bebês crescidos, querem ficar com eles para sempre. Dão em cima, vão buscar, e acabam, pobres tolas, tendo que decidir por todos os começos e todos os fins.
Anas Kareninas, Simones de Beauvoirs, Olgas Benários, Laras Crofts, Lous Salomés, Beatrixs Kiddos…
Uma gente que não se importa em ter, por exemplo, envolvimentos exclusivamente sexuais, gente que concorda em arriscar alguma coisa sem certeza nenhuma do que virá pela frente, gente que quer apostar no incerto, só para ver no que dá, gente que não precisa ir devagar para não se ferir, gente hedonista, carnal, workaholic. Gente, em última instância, estressada, é claro.
Já os homens Thom Yorke querem se lamentar. Homens Álvares de Azevedo querem discutir sobre qual o sentido do amor, afinal “oras, amar para quê?”. Homens Joel Barish (Jim Carrey em “Brilho eterno de uma mente sem lembrança”) querem saber, antes de qualquer coisa, qual o tipo de apoio que vão receber de sua amada numa situação mais delicada. E se o relacionamento não der certo, eles vão procurar um médico que possa deletá-la sumariamente de sua memória.
No fundo, eu não sei até onde as transformações entre gêneros fizeram bem ao mundo. E eu sei que eu mesma tenho a minha parcela de culpa. Sempre preferi um Ross a um Chuck Norris. E quem haveria de me culpar?
E agora, quando surge em mim uma necessidade de ser frágil, incoerente, dodói, agora, que essa mulherada já fez com que eles acreditassem que não era isso que a gente queria, problema nosso!
Ficamos meio imóveis, tomando conta do equilíbrio do mundo (porque a gente se acha, claro). Não podemos cobrar, porque eles se irritam. Não podemos perguntar, porque perguntar é cobrar e eles se irritam. Não podemos magoar, porque magoar é ser mandona, ser mandona é perguntar, perguntar é cobrar, e eles se irritam. Não podemos dizer que estamos nos sentindo sozinhas, porque isso é cobrar e eles se irritam. Temos que pisar em ovos, porque tudo os deixa meio de mau humor. E eles se irritam.
E a gente não consegue acompanhar. E para variar, a gente não leva nenhum tipo de vantagem. Com toda essa suposta fortaleza nos sendo jogada nos ombros, o nosso caminhar pela vida acaba ficando um pouco mais difícil. E o pior, não nos deram o essencial para sermos a verdadeira mulher-macho: o desapego.
E isso, minha amiga, acho que nem em um milhão de anos.
Nem com milênios de evolução.
Nem com Darwin e Freud, sentadinhos, um de cada lado, segurando as nossas mãos, nos dando beijinhos e fazendo massagem nos nossos pés.

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